
As moedinhas dele somavam só R$ 1,40 e a fome que ele passava certamente era umas dez vezes mais cara que isso.
Fazia frio em Porto Alegre e o tempo estava nublado. A 24 de Outubro estava movimentada, como sempre, e a tia do cachorro-quente estava com a carrocinha montada, apesar do vento cortante. Fui lá comprar meu almoço, um dogão com duas salsichas e sem mostarda. Dali, eu tinha que sair em seguida, no primeiro ônibus para o Mercado Público. Antes, porém, vi um rapazinho entrar atrás de mim na fila do cachorro-quente.
Ele estava de chinelo e moletom – repito, fazia frio em Porto Alegre, o tempo estava nublado e o vento era cortante. Devia ter uns dez anos de idade, talvez um pouco menos. Olhou o cartaz com os preços dos lanches, abriu a mão, visivelmente trêmulo, tiritando de frio. Começou a contar as moedinhas. Escutei ele somando em voz baixa. Logo percebi que não era suficiente.
- Qual o cachorro-quente mais barato, tia? -, perguntou o guri.
- R$ 4,00 – respondeu a dona da carrocinha.
Nova contagem. O dinheiro ainda era pouco para o lanche mais barato. Foi então que perguntei:
- Quanto tu tens aí?
- Eu tenho... (mais uma conferida nas moedas que tinha na mão)... R$ 1,40.
Pior é que eu também não tinha o bastante para completar o lanche dele. Depois de pagar o meu, tinha me sobrado apenas um trocado para pagar o ônibus. R$ 1,00 era meu único excesso...
- Pega mais R$ 1,00 pra ajudar no teu lanche -, disse eu, com um olho no guri e outro na tia da carrocinha.
Mais que na hora, ele contou de novo as moedas e disparou:
- Faz um pra mim por R$ 2,40, tia?
Ela disse que sim, para a alegria daquele estômago faminto sabe-se lá desde quando. Na certa, mesmo o cachorro-quente mais completo ainda seria pouco para tanta fome. Mas o manteria vivo por mais algumas horas. E enquanto escrevo este relato, meu mp3 toca Armas químicas e poemas, do Engenheiros do Hawaii. “Qual a lógica do sistema?”...
