quarta-feira, 11 de março de 2015

Super-repórter

Meus pertences na Redação: um kit chimarrão,
uma xícara (para o café no plantão), uma capa de chuva
(para os dias de enchente e assemelhados), blocos, canetas,
cartões de visita (contatos!) e algumas lembrancinhas

Superados os trâmites burocráticos, nesta quinta-feira, 12 de março de 2015, começo efetivamente minha caminhada para virar "doutora". Será meu primeiro dia de aula no doutorado da UFRGS. Abri mão precocemente de uma carreira no jornalismo diário para me dedicar a este novo projeto de vida.

Abri mão naquelas. Depois de cinco anos no dia a dia da reportagem de um grande jornal, pelo menos nesses primeiros dias de abstinência, eu ainda me sinto repórter. Acho que sempre serei repórter, mesmo que não esteja repórter por algum tempo.

Eu arriscaria dizer que Robert Park, jornalista e sociólogo, que será um dos meus gurus nos próximos quatro anos, passou por sensação semelhante um século atrás. Park dizia que o sociólogo é um "super-repórter", um repórter mais científico, mais preciso e responsável. 

Levando em conta que a Comunicação está no guarda-chuva das Ciências Sociais Aplicadas, tomo para mim a metáfora de Park para descrever como me vejo enquanto pesquisadora, com alma de repórter. Quiçá esta nova etapa da minha caminhada me ajude a chegar mais perto do que se poderia chamar de "super-repórter".


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Da irrelevância do preconceito

Não é de hoje que jornais contam histórias de vítimas de tragédias. Há quem diga que a prática é sensacionalista, e às vezes é mesmo. Eu defendo que ela serve para tirar o foco da notícia da frieza dos números. Uma morte no trânsito não é mera estatística. Alguém esperava a chegada daquela pessoa que ficou pelo caminho. São sonhos interrompidos, filhos órfãos, quartos vazios. Vidas, enfim.

Neste Natal, coube a mim contar a triste história da Manu e da Fran. Duas jovens que iam de moto para o trabalho, num restaurante no centro de Capão da Canoa, mas não chegaram ao destino porque foram surpreendidas por uma EcoSport desgovernada, guiada por um motorista embriagado (preso em flagrante e indiciado por homicídio doloso), que dirigia na contramão. Manu morreu na hora. Fran foi parar no hospital.

Conforme a apuração avançou, soube que as duas não eram apenas grandes amigas ou simples colegas de trabalho. Eram namoradas, moravam juntas há cerca de dois anos. Um casal, ponto. E assim se noticiou, com naturalidade, sem tabus. Mas aí vieram os comentários nas redes sociais dando conta da irrelevância de expor a 'opção sexual' das duas, questionando qual o problema de ser um 'casal homossexual', entre outras, digamos, acusações.

Pois bem, tanto isso não é relevante que o texto não faz qualquer menção aos termos citados: é um casal, ponto. Fosse um casal heterossexual seria também um casal, ponto. E teria também sua história contada pelo jornal, como tantas vezes já foram contados casos semelhantes pela imprensa, basta conferir nas edições anteriores.

O relacionamento da Manu e da Fran não era secreto. Era conhecido por todos: família, colegas de trabalho e a quem mais quisesse saber. O perfil público das duas no Facebook tinha o nome do casal. Manu era Manu e Fran, Fran era Fran e Manu. As duas eram uma só. Um casal, ponto.

Esses que nos acusam de 'estimular o preconceito' não se dão conta de que preconceituosa seria a atitude de ignorar tais informações e dizer que as duas eram amigas ou apenas colegas de trabalho, como se o real status da relação fosse algo 'errado', um grave desvio de conduta ou, pior, um crime. O preconceito está na consciência de cada um. A minha está tranquila.