Não é de hoje que jornais contam histórias de vítimas de tragédias. Há quem diga que a prática é sensacionalista, e às vezes é mesmo. Eu defendo que ela serve para tirar o foco da notícia da frieza dos números. Uma morte no trânsito não é mera estatística. Alguém esperava a chegada daquela pessoa que ficou pelo caminho. São sonhos interrompidos, filhos órfãos, quartos vazios. Vidas, enfim.
Neste Natal, coube a mim contar a triste história da Manu e da Fran. Duas jovens que iam de moto para o trabalho, num restaurante no centro de Capão da Canoa, mas não chegaram ao destino porque foram surpreendidas por uma EcoSport desgovernada, guiada por um motorista embriagado (preso em flagrante e indiciado por homicídio doloso), que dirigia na contramão. Manu morreu na hora. Fran foi parar no hospital.
Conforme a apuração avançou, soube que as duas não eram apenas grandes amigas ou simples colegas de trabalho. Eram namoradas, moravam juntas há cerca de dois anos. Um casal, ponto. E assim se noticiou, com naturalidade, sem tabus. Mas aí vieram os comentários nas redes sociais dando conta da irrelevância de expor a 'opção sexual' das duas, questionando qual o problema de ser um 'casal homossexual', entre outras, digamos, acusações.
Pois bem, tanto isso não é relevante que o texto não faz qualquer menção aos termos citados: é um casal, ponto. Fosse um casal heterossexual seria também um casal, ponto. E teria também sua história contada pelo jornal, como tantas vezes já foram contados casos semelhantes pela imprensa, basta conferir nas edições anteriores.
O relacionamento da Manu e da Fran não era secreto. Era conhecido por todos: família, colegas de trabalho e a quem mais quisesse saber. O perfil público das duas no Facebook tinha o nome do casal. Manu era Manu e Fran, Fran era Fran e Manu. As duas eram uma só. Um casal, ponto.
Esses que nos acusam de 'estimular o preconceito' não se dão conta de que preconceituosa seria a atitude de ignorar tais informações e dizer que as duas eram amigas ou apenas colegas de trabalho, como se o real status da relação fosse algo 'errado', um grave desvio de conduta ou, pior, um crime. O preconceito está na consciência de cada um. A minha está tranquila.
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
domingo, 21 de setembro de 2014
Histórias que eu não gostaria de contar, mas tenho o dever de fazê-lo
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| Foto: Ricardo Duarte/ZH |
Há duas semanas, recebi a missão de ir a Erechim para ver como estariam as famílias que perderam seus filhos em um acidente com um ônibus escolar há 10 anos, causando a morte de 17 adolescentes. É daquelas pautas que colocam o jornalista numa situação delicada, de tocar num assunto sensível, dolorido, correndo sério risco de cair no sensacionalismo.
Foram dias difíceis, porque não é fácil conviver com tamanha carga emocional dos depoimentos que a gente escuta nessas situações. Mas o mais difícil é engolir que, dez anos depois, ninguém pagou pela tragédia. E, pior, o crime pode até prescrever sem que ninguém seja punido.
Como o Nilson Vargas escreveu na carta do editor, este é um fato que não gostaríamos de noticiar, mas é o tipo de reportagem que nos faz ter orgulho de ser jornalistas. Alguém precisa "refrescar a memória" da população e da Justiça, porque não podemos nos conformar com a impunidade. Fico satisfeita por ter sido este alguém neste caso.
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