quarta-feira, 20 de abril de 2016

Internet fixa limitada, comunicação digital e democratização das mídias

Publicado em medium.com/@taisecoisas

Foto: Karolina Grabowska.STAFFAGE/Pexels
Com tanta coisa acontecendo em Brasília, a decisão da Anatel de permitir que operadoras limitem o acesso à internet fixa no país poderia até passar batida na pauta. Só que não. Derrubem a presidência da República, mas não a minha conexão! Estou exagerando (espero), mas é mais ou menos por aí. Afinal, sem internet à vontade, até as mais polarizadas discussões que movimentam nossas timelinesultimamente correm risco de restrição.
Há pouco mais de um ano fora do jornalismo diário, por questões de pesquisa acadêmica, no doutorado em Comunicação, e de experiência docente, dando aulas na graduação, tenho me debruçado mais criticamente sobre a internet no Brasil. Quando trabalhava na chamada grande mídia, via com certa naturalidade a inspiração em modelos norte-americanos e europeus. Um repórter das antigas costumava dizer que fazíamos um jornal de província como se estivéssemos no primeiro mundo. Há sentido nessa crítica.
Acontece que nós — eu e você, sim, porque se eu estou publicando este texto na internet e você está lendo, é porque eu e você estamos online, portanto fazemos parte disso — enfim, acontece que nós aqui que estamos revoltados contra a limitação da internet fixa (com razão, diga-se) fazemos parte de um grupo de 85,6 milhões de compatriotas, segundo o IBGE. Só que somos200,4 milhões brasileiros no total. Entendeu a proporção? E não vale descontar crianças, porque eu sei que você, assim como eu, tem um sobrinho, filho ou qualquer bebê por perto que aprendeu a mexer no touch screen do smartphone antes de pronunciar o primeiro R corretamente.
A verdade é que mais da metade da população brasileira não tem acesso à internet.
Há outras verdades que precisam ser ditas. Um milhão de brasileiros não têm energia elétrica. Isso mesmo, em pleno século XXI, um milhão de pessoas não pode sequer ligar um computador (?) na tomada — nem abrir a geladeira para servir um copo de água gelada. Ah, cerca de 35 milhões também não têm água tratada em casa. E quase metade dos brasileiros sobrevive com até um salário mínimo. Só para citar algumas verdades sobre o nosso país.
Agora imagine se, para nós, eu e você, que estamos aqui, conectados, vai ser difícil manter certos padrões de conexão, porque as franquias se tornarão absurdamente caras, quais as chances de o acesso a padrões mínimos de conexão se popularizar no Brasil?
Em termos práticos, caso você assista três horas de vídeo online em HD ao dia, será preciso contratar uma franquia de 300GB, a um custo superior a R$ 300. Isso considerando que você more sozinho. Do contrário, você ainda terá de dividir essa cota com marido e filhos. Vou me apropriar da relação muito bem colocada por uma aluna em sala de aula: o salário mínimo nacional é R$ 880, ou seja, o custo da franquia máxima de internet representaria em torno de 34% do salário mínimo. Lembre-se que metade da população tem renda até esse valor e mais da metade da população está offline…
Você pode indicar que esse cidadão compre a menor franquia ofertada, 10GB, a um custo aproximado de R$ 29,90. Na média de consumo de 1GB para cada hora de vídeo em HD, esse cidadão teria direito a algo em torno de 20 minutos de vídeo online ao dia.
O que pretendo aqui é lançar outro olhar sobre o discurso a favor da tal “democratização das mídias”. Parece que é preciso, primeiro, discutir o que entendemos por “democratizar”.
E a nossa revolta contra o sistema de franquias que estão querendo nos impor pode nos inspirar a uma compreensão mais ampla da questão, afinal a matemática é clara — e o mercado é perverso. O sistema de franquias estabelece mais um corte social, pelo viés econômico.
Soma-se a isso a dificuldade de viabilizar economicamente negócios de comunicação digital, que dependem de assinaturas. Pagando mais caro pelo acesso, o peso de mais mensalidades a pagar torna-se ainda maior ou pode até perder o sentido: se a franquia que couber no bolso for muito pequena, nem justificará o investimento em certos serviços online.
Não que a estratificação econômica já não estivesse posta na internet, mas certamente ela fica mais exposta com a mudança no sistema de cobrança. É o famoso “passo atrás”.
Considero mais do que necessário que nós, eu e você, os conectados,assinemos petições, manifestemos insatisfação, tomemos as medidas que estão ao nosso alcance para pressionar contra a limitação da internet fixa — por mais que a gente saiba quem realmente tem poder nessa discussão. Porém não só pelas contas que nós pagamos. Também por melhores perspectivas para que aqueles 114 milhões de brasileiros possam vir a fazer parte da nossa rede. Esta rede que consideramos livre (?) e democrática.

sexta-feira, 25 de março de 2016

Pecado grave

"Não seria preferível dormir o sono dos justos nesta vida em vez de sonhar com recompensas eternas?"

Perdão, Senhor, pois eu pequei. Ninguém viu. Não há testemunhas, nem grampos telefônicos, muito menos planilhas de contabilidade paralela. Não seria necessário perder o sono temendo vazamentos seletivos ou delações premiadas. Só eu sei do pecado que cometi.

Confesso. Comi carne vermelha na Sexta-feira Santa. Ninguém me obrigou. Eu quis. Foi minha culpa. Minha tão grande culpa. Filha de família católica, ex-integrante de grupos de jovens, o que dirão meus pais quando souberem? Quantos unfollows tal fraqueza de caráter representará na minha rede social? Não queria decepcioná-los. Perdão, senhores!

Eu estava consciente de que ao comer iscas de coxão de dentro aceboladas (porque o filé está pela hora da crucificação) na Sexta-feira Santa eu estaria desrespeitando uma tradição que me foi preciosa por muitos anos. Mesmo assim, comi. Suponho que os gestores de Departamentos de Propina em empreiteiras tinham semelhante consciência de que estavam desrespeitando a lei (esta, aparentemente, menos preciosa). Mesmo assim...

Há semanas a pauta predominante em qualquer roda de conversa, seja na barbearia ou no cafezinho da firma, é a crise política, financeira, midiática até. Mas a mãe de todas elas é a crise moral. Esta mesma crise que faz o cristão agir nas sombras o ano todo e deixar de comer carne vermelha na Sexta-feira Santa para, supostamente, merecer o "Reino dos Céus". Não seria preferível dormir o sono dos justos nesta vida em vez de sonhar com recompensas eternas?

Não estou falando de religiosidade, nem julgando a devoção alheia. Falo de coerência. Seria incoerente de minha parte reclamar foro privilegiado no Juízo Final, sabendo que comi carne vermelha na Sexta-feira Santa. Sei que pequei. Pequei quando ninguém estava vendo, mas isso não me faz menos culpada.

Discussões sobre a ilegalidade da quebra de sigilo de partes da investigação da Lava-Jato acirraram o debate nos últimos dias. Não é que os fins justifiquem os meios. Penso que colocar o foco na divulgação disso ou daquilo, seja por parte de um partido político, instância judiciária ou canal de televisão, é mais um meio para atingir fins duvidosos. E isso não é inconsciente.

Perdoai-vos, Senhor, pois eles sabem, sim, o que fazem. Apenas fingem não fazer.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Sobre jornalismo e internet

Em meio à divulgação do curso de extensão em Jornalismo na Web que estou oferecendo na Unisinos Porto Alegre, junto com meu colega Felipe Martini, tenho sido requisitada para dar algumas entrevistas para os meios de comunicação da universidade. Hoje à tarde, uma repórter da Rádio Unisinos disparou a pergunta do milênio: como você vê o futuro do jornalismo?

Talvez não tenha sido exatamente nessas palavras - vocês podem conferir no ar na próxima terça, às 18h, com reprise às 22h, na 103.3 FM ou pela internet. Mas o sentido da pergunta era esse. E essa é a pergunta que eu e todos os jornalistas e pesquisadores de jornalismo e, principalmente, empresários do setor estão tentando responder.

O mercado tem apresentado diversos sintomas que parecem levar à falência múltipla dos órgãos, em especial no âmbito das empresas jornalísticas. Demissões em massa, fechamento de títulos, jornais que deixam de ser impressos, devolução de concessões de TV. O fenômeno da internet tem a ver com isso. Os métodos tradicionais de se obter lucro 'comercializando' notícias não se aplicam a esse novo (?) espaço.

No entanto, a sociedade continuará precisando de notícias e, portanto, de jornalistas. Desde que o jornalismo não deixe ruir o que considero ser o seu principal pilar de sustentação: a credibilidade. A internet tem sido responsável pela derrocada da credibilidade de diversos profissionais e instituições nos últimos anos - na maior parte das vezes, por culpa deles próprios, forçados ou não pela pressão do "tempo real" imposta pela instantaneidade dos meios digitais ou então levados pela banalização de conteúdos em busca de cliques. Isso, sim, pode levar o jornalismo à extrema unção.

Alguns dirão que, na internet, a informação está aí, com ou sem jornalistas. Em uma declaração sobre o aplicativo News, da Apple, anunciado esta semana, Philip Bump, do Washington Post, foi por esse caminho. Para ele, os leitores não ligam para a fonte das notícias: eles apenas querem consumir a notícia, não importa de onde ela venha.

Pode ser que Bump esteja certo. Prefiro não arriscar projeções a esse respeito, pois ainda não tenho informação suficiente sobre a dinâmica do News. Contudo, considerando que o Facebook também anunciou recentemente iniciativa semelhante para veicular notícias, vejo pelo menos uma conclusão possível: se notícias não fossem importantes, os donos dos algoritmos que dominam a internet não estariam tão interessados nelas.

Resultados de pesquisas recentes justificam tal interesse. Só para citar um dado novo, um estudo divulgado no início deste mês pelo Pew Research Center mostrou que 61% dos jovens da Geração Y usam o Facebook para ler notícias de política.

Enfim, o que posso dizer sobre o futuro do jornalismo é que precisamos compreender melhor as dinâmicas próprias da internet para que elas possam então ser apropriadas jornalisticamente, ao invés de ficar tentando reproduzir lógicas convencionais na rede. Provocar reflexões a esse respeito é a motivação central do curso que desencadeou a pergunta do milênio naquela entrevista. Aliás, amanhã vou participar de outro programa na Rádio Unisinos, onde essas e outras reflexões certamente irão pipocar novamente. Ouve lá!

Rádio Unisinos FM 103.3 ou clique aqui
- 12 de junho, sexta, a partir das 13h, ao vivo no estúdio no programa Blá Blá Blá
- 16 de junho, terça, às 18h, com reprise às 22h, no programa Universo Unisinos

Você também pode se interessar por:
Imprensa vs. Redes Sociais: empate técnico?

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Só???

Passado um mês de dedicação exclusiva ao doutorado,  já posso enumerar algumas perguntas que fazem um doutorando tremer, principalmente se for bolsista e em início de curso. Aí vai meu top 3:

1- "Mas você está SÓ fazendo doutorado?". Sim. SÓ.

2- "Quantos dias você tem AULA?". Um. "SÓ???". Sim. SÓ.

3- "Sobre o que é a sua pesquisa?". Jornalismo. "Tá, mas especificamente o quê?". Calma, eu SÓ comecei, tenho quatro anos para pensar nessa resposta!

Quem, por acaso, já me fez uma dessas perguntas (ou todas), não precisa se preocupar. Não guardo rancor. Mas se puderem evitar, agradeço. Quanto à terceira pergunta, um texto que escrevi há pouco tempo, publicado no Observatório da Imprensa, dá algumas pistas do que ando pensando/fazendo:



quarta-feira, 25 de março de 2015

Gustavo, o 13 de ouro


Se fosse uma carta no jogo de baralho, Gustavo Endres seria o 13 de ouro. Pela seleção brasileira de vôlei, o central gaúcho de 39 anos e 2m03cm foi campeão de tudo: ouro na Olimpíada de Atenas em 2004, campeão de dois Pan-Americanos, dois Mundiais, duas Copas do Mundo e seis Ligas Mundiais. Eleito o melhor bloqueador em várias competições, Gustavo era um dos pilares da geração mais vitoriosa que o vôlei brasileiro já viu.

Mas todo atleta tem seu ciclo. Após a eliminação do Canoas nas quartas de final da Superliga, o multicampeão anunciou que vai pendurar as joelheiras. Nesta temporada, a terceira no Canoas, o meio de rede natural de Passo Fundo já não tinha mais aquela efetividade dos tempos áureos. O que se destacava mesmo na sua atuação, além das veias saltadas no rosto a cada “toco” (jargão do vôlei para ponto de bloqueio), era sua liderança.

A braçadeira era mero adereço. Em jogos no La Salle, vi Gustavo ser veemente ao cobrar dos novatos o posicionamento correto e também ao reclamar das marcações da arbitragem. Era um capitão nato. Colega de equipe, Thiago Barth, 26 anos, mais um gaúcho que joga na mesma posição e forte candidato a uma vaga na seleção do próximo Pan, traduz o respeito que um ídolo da envergadura de Gustavo merece:

_ Qualquer central que começou a jogar nos últimos 10 anos deve ter se espelhado nos bloqueios do Gustavo. Ele escreveu o nome dele no voleibol mundial.

A postura de Gustavo fora de quadra também sempre foi respeitável: nunca se esquivou da defesa por melhores condições para os atletas e, desde que veio para o Canoas, tem sido um porta-voz contundente da equipe. Características que o credenciam para seguir ligado ao voleibol no papel de dirigente. Outro central gaúcho medalhista olímpico, André Heller, 39 anos, é um exemplo: parou de jogar, mas permaneceu no Brasil Kirin, de Campinas, como coordenador técnico.


O Canoas ainda não tem um posicionamento oficial sobre o destino do agora ex-atleta, mas não há dúvida de que a permanência de Gustavo no clube seria benéfica para ambos. Ele tem a empatia da torcida, está identificado com o time e a cidade. Ficando no Canoas, o 13 de ouro certamente ajudaria a consolidar o projeto do clube de recolocar o vôlei gaúcho entre os melhores do país. Gustavo é bom demais para virar carta fora do baralho.  

*Este texto foi originalmente publicado na coluna De Fora da Área, em Zero Hora, no dia 19 de março de 2015.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Super-repórter

Meus pertences na Redação: um kit chimarrão,
uma xícara (para o café no plantão), uma capa de chuva
(para os dias de enchente e assemelhados), blocos, canetas,
cartões de visita (contatos!) e algumas lembrancinhas

Superados os trâmites burocráticos, nesta quinta-feira, 12 de março de 2015, começo efetivamente minha caminhada para virar "doutora". Será meu primeiro dia de aula no doutorado da UFRGS. Abri mão precocemente de uma carreira no jornalismo diário para me dedicar a este novo projeto de vida.

Abri mão naquelas. Depois de cinco anos no dia a dia da reportagem de um grande jornal, pelo menos nesses primeiros dias de abstinência, eu ainda me sinto repórter. Acho que sempre serei repórter, mesmo que não esteja repórter por algum tempo.

Eu arriscaria dizer que Robert Park, jornalista e sociólogo, que será um dos meus gurus nos próximos quatro anos, passou por sensação semelhante um século atrás. Park dizia que o sociólogo é um "super-repórter", um repórter mais científico, mais preciso e responsável. 

Levando em conta que a Comunicação está no guarda-chuva das Ciências Sociais Aplicadas, tomo para mim a metáfora de Park para descrever como me vejo enquanto pesquisadora, com alma de repórter. Quiçá esta nova etapa da minha caminhada me ajude a chegar mais perto do que se poderia chamar de "super-repórter".


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Da irrelevância do preconceito

Não é de hoje que jornais contam histórias de vítimas de tragédias. Há quem diga que a prática é sensacionalista, e às vezes é mesmo. Eu defendo que ela serve para tirar o foco da notícia da frieza dos números. Uma morte no trânsito não é mera estatística. Alguém esperava a chegada daquela pessoa que ficou pelo caminho. São sonhos interrompidos, filhos órfãos, quartos vazios. Vidas, enfim.

Neste Natal, coube a mim contar a triste história da Manu e da Fran. Duas jovens que iam de moto para o trabalho, num restaurante no centro de Capão da Canoa, mas não chegaram ao destino porque foram surpreendidas por uma EcoSport desgovernada, guiada por um motorista embriagado (preso em flagrante e indiciado por homicídio doloso), que dirigia na contramão. Manu morreu na hora. Fran foi parar no hospital.

Conforme a apuração avançou, soube que as duas não eram apenas grandes amigas ou simples colegas de trabalho. Eram namoradas, moravam juntas há cerca de dois anos. Um casal, ponto. E assim se noticiou, com naturalidade, sem tabus. Mas aí vieram os comentários nas redes sociais dando conta da irrelevância de expor a 'opção sexual' das duas, questionando qual o problema de ser um 'casal homossexual', entre outras, digamos, acusações.

Pois bem, tanto isso não é relevante que o texto não faz qualquer menção aos termos citados: é um casal, ponto. Fosse um casal heterossexual seria também um casal, ponto. E teria também sua história contada pelo jornal, como tantas vezes já foram contados casos semelhantes pela imprensa, basta conferir nas edições anteriores.

O relacionamento da Manu e da Fran não era secreto. Era conhecido por todos: família, colegas de trabalho e a quem mais quisesse saber. O perfil público das duas no Facebook tinha o nome do casal. Manu era Manu e Fran, Fran era Fran e Manu. As duas eram uma só. Um casal, ponto.

Esses que nos acusam de 'estimular o preconceito' não se dão conta de que preconceituosa seria a atitude de ignorar tais informações e dizer que as duas eram amigas ou apenas colegas de trabalho, como se o real status da relação fosse algo 'errado', um grave desvio de conduta ou, pior, um crime. O preconceito está na consciência de cada um. A minha está tranquila.

domingo, 21 de setembro de 2014

Histórias que eu não gostaria de contar, mas tenho o dever de fazê-lo

Foto: Ricardo Duarte/ZH
Há duas semanas, recebi a missão de ir a Erechim para ver como estariam as famílias que perderam seus filhos em um acidente com um ônibus escolar há 10 anos, causando a morte de 17 adolescentes. É daquelas pautas que colocam o jornalista numa situação delicada, de tocar num assunto sensível, dolorido, correndo sério risco de cair no sensacionalismo.

Foram dias difíceis, porque não é fácil conviver com tamanha carga emocional dos depoimentos que a gente escuta nessas situações. Mas o mais difícil é engolir que, dez anos depois, ninguém pagou pela tragédia. E, pior, o crime pode até prescrever sem que ninguém seja punido.
Como o Nilson Vargas escreveu na carta do editor, este é um fato que não gostaríamos de noticiar, mas é o tipo de reportagem que nos faz ter orgulho de ser jornalistas. Alguém precisa "refrescar a memória" da população e da Justiça, porque não podemos nos conformar com a impunidade. Fico satisfeita por ter sido este alguém neste caso.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Um estádio que “habla”

Ao dar as boas vindas aos turistas brasileiros, peruanos, mexicanos, italianos e franceses que estavam na van com destino à La Bombonera, o guia questionou:

- Vocês já viram um estádio que “habla”? Pois hoje vocês vão ver.

“La Bombonera habla” era a capa do esportivo argentino Olé naquele dia. Domingo, 31 de agosto de 2014.

O Boca Juniors, passando por péssima fase no campeonato nacional, no qual não está nem entre os 10 primeiros colocados, enfrentaria o então líder, Vélez Sarsfield, 100% de aproveitamento. O ingrediente extra era a rescisão do contrato com o treinador Carlos Bianchi, simplesmente o treinador que mais títulos conquistou à frente do Boca – foram três Libertadores, só para dar uma ideia – mas que amargava três derrotas em quatro jogos pelo campeonato argentino. Bianchi acreditava em recuperação no clássico, porém a diretoria do clube não lhe deu chance. Em resposta, a fanática torcida prometia “hablar”. No caminho para a Bombonera, faixas de apoio a Bianchi davam o tom.

O Boca tem 130 mil sócios e La Bombonera só tem capacidade para 55 mil. Tenho a impressão de que se existisse um estádio capaz de abrigar 130 mil, todos estariam lá. O mesmo não se pode dizer da Arena do Grêmio, em que há muitos sócios e poucos torcedores.

No caso do Boca, a única forma de entrar em um jogo é sendo sócio, não são vendidos ingressos avulsos. Os turistas, como eu, encontram pacotes para ir ao jogo graças a uma gambiarra com carteirinhas de sócios que não vão ao estádio por alguma razão. Prática questionável, ok, ainda mais que é preciso estar disposto a pagar algo em torno de 100 dólares para ver um jogo peleado e de dribles escassos. Somente apaixonados por futebol entenderão minha opção.

Fiquei atrás do gol, no terceiro anel da Bombonera, ligeiramente ao lado de “La 12”. Trapos estendidos, bandeiras tremulando, gente empoleirada nas grades e a banda ditando o ritmo. Ao redor do estádio, com torcida única, medida extrema para conter as brigas entre torcidas, os xeneizes acompanhavam os gritos de guerra. Até aquele torcedor meio tiozinho que, na antiga social do Olímpico, xingávamos de “secador”, subia nas cadeiras e empurrava o time, aos berros. Eram todos incansáveis, mesmo quando o Vélez, na única vez em que chegou ao ataque durante todo o primeiro tempo, aos 44 minutos, abriu o placar. E contagiaram até os turistas quando o Boca voltou a ser o Boca, empatou num gol de escanteio, virou num rebote e ainda achou um terceiro gol de contragolpe, quando já estava com um jogador a menos – teve um expulso após um carrinho na lateral do gramado, no campo de defesa, aos 38 do segundo tempo. Nada mais típico.

A Bombonera não só “hablou”, como cantou e gritou. Pulsou como nunca tinha visto um estádio pulsar. A Arena ainda é muda. Tão muda que gritos racistas falam mais alto. O Olímpico fez ouvir a sua voz em momentos importantes da história Tricolor. Talvez tenha sido apenas coincidência e não passou de um golpe de sorte presenciar um desses momentos em La Bombonera. Pois então que sorte a minha, pibe! Um dia vou poder contar aos meus netos que vi um estádio “hablar”.

*Uma versão deste texto foi publicada em Zero Hora, na seção De fora da área (4 de setembro de 2014)

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Jornalismo dói

O jornalismo, às vezes, é doloroso. Na verdade, quase sempre. E desde sempre. Mas tenho a impressão de que é mais doloroso atualmente. Pelo menos para quem faz jornalismo.

Um dos motivos para isso, suponho, é esta tal da internet. A rede é uma ferida constante e inevitavelmente aberta para o jornalismo. E isso dói. Dói porque faz da incapacidade jornalística de depreender os fatos uma fratura ainda mais exposta. Cada comentário é uma facada na nossa capacidade de observação, investigação ou síntese dos acontecimentos. Ou tudo isso junto. E isso não é necessariamente um atestado de incompetência.

Na maior parte do tempo, o jornalismo é pouco profundo justamente porque não há tempo para se aprofundar. Às vezes são decisões meramente jornalísticas que acabam passando a impressão de superficialidade. Preferir termos do senso comum a expressões, digamos, mais filosóficas, por exemplo. É um artifício jornalístico para atingir um público maior, mas sempre soa como ignorância para os mais entendidos.

Outro dia escrevi sobre moradores de rua e levei uma vaia nas redes sociais. "Se a repórter tivesse pesquisado direito, saberia que o correto é pessoas em situação de rua, isso só mostra a decadência do jornalismo". Não quero aqui falar de certo e errado, mas a presunção do comentário é, no mínimo, injusta. E toda busca por estatísticas? E o trabalho de campo? E as entrevistas? É tudo fruto de imaginação? Não, é trabalho jornalístico. O tal leitor jamais saberá que, para escrever aquelas 50 linhas, além de bater de viaduto em viaduto na cidade, eu li dezenas de artigos acadêmicos e publicações oficiais, portanto, sim, eu tinha conhecimento do termo "pessoas em situação de rua" e até sou capaz de compreender que ele designa uma condição social muito mais complexa e, de certa forma, menos pejorativa do que o usual "moradores de rua". Mas isso era o mais importante?

Jornalisticamente, achei que não era. Posso ter me enganado, mas os demais comentários sobre o mesmo tema me oferecem poucos indícios de que usar um termo novo mudaria os sentidos da audiência sobre o que escrevi. É que esse tipo de assunto dói para quem lê. Dá para perceber pelos comentários mais perversos que esses temas são capazes de provocar. Dói demais, para quem escreve, ler o que se comenta sobre o que você escreveu. É de perder a esperança na humanidade - e no jornalismo.

Só que um jornal que se preze precisa tocar nas feridas da sociedade. Falar de assuntos dolorosos no jornal estimula o debate em torno da cura das nossas mazelas. Era isso que eu ouvia na faculdade. Mas o mundo de hoje sequer suporta um botão "não curtir" na rede social. É proibido se aborrecer na internet. Aborrecer os outros, então? A internet só serve pra gente se divertir.

Portanto, não venha lá o Seu Jornalismo me falar do que eu prefiro não saber. Faça uma coisa mais descontraída, uma lista de filmes para ver no Netflix, um testezinho para saber qual personagem do Game of Thrones mais se parece comigo. E o jornalismo, claro, vai lá e faz. Afinal, a máxima agora é estar atento aos anseios da audiência. Além do mais, não pega bem ficar dando motivo para falarem mal do que você publica. O negócio é multiplicar curtidas.

Nada contra o jornalismo de entretenimento, é uma prática legítima e sempre esteve aí. Nada contra, também, ao debate aberto nas tais redes sociais, é um avanço para a liberdade de expressão. A questão é que essa ditadura da curtição, essa necessidade de ser cada vez mais interessante do que importante faz do jornalismo um pouco mais doloroso hoje em dia.

Enfim, se ficou para trás aquela ilusão dos tempos de faculdade de querer "transformar a sociedade", o que nada mais é do que um eufemismo para "mudar o mundo", depois de alguns anos de jornalismo, posso dizer que uma certeza eu tenho: se não pude mudar o mundo, pelo menos o jornalismo mudou a minha forma de ver o mundo. E até isso dói de vez em quando.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

#teveCopa. E que Copa!

É teeetraaa!!!

A primeira lembrança que tenho de uma Copa é de 1994. Eu tinha oito anos e mal sabia direito o que era futebol, mas lembro bem da família reunida em frente à TV, aquela bola para o mato do Baggio, o Pelé abraçado no Galvão, e o Galvão gritando: é teeeetraaa!

Depois eu vi o Ronaldo ficar grog na França, o Felipão trazer o penta no Japão/Coreia, o Roberto Carlos arrumar as meias na Alemanha e o Robben fazer um gol de cabeça na África do Sul. Mas nenhuma Copa será como esta. Pode vir a da Rússia, a do Catar (se vier), o hexa, o octa, sei lá. É desta Copa que vou falar aos meus netos. A Copa do Brasil.  

Vou falar de hinos à capela, de homens que choram, de zebras que viram leões. Vou falar de goleiros incríveis, de goleadas incríveis e, claro, da goleada mais incrível de todas. Vou falar de vitórias no último minuto, de prorrogações e mais prorrogações, de decisões por pênaltis. Vou falar de uma musiquinha insuportável da torcida argentina, da zoeira na internet, do Podolski no Twitter.

Mas, principalmente, vou falar que Porto Alegre nunca esteve tão linda, tão colorida, tão feliz. Vou falar que conheci três mosqueteiros franceses que vivem em Buenos Aires, um coreano que mora no Panamá e gosta de vir ao RS para comer temaki, um suíço que mora na Noruega e segue a Alemanha em todas as copas desde 1990.

Vou falar que vi 5 mil argentinos acamparem no Harmonia, que vi a Coronel Genuino decorada com bandeiras cor de laranja para a festa holandesa, que vi australianos transbordarem pela Lima e Silva. 

Vou falar que vi muitos jogos comendo pipoca na Redação, mas vi outros na fan fest e até na fan fest B, improvisada para dar conta de tantos argentinos. Vou falar que fui ao estádio do Inter - e gostei. No Beira-Rio, eu vi jogar a seleção alemã que seria tetracampeã mundial semanas depois. 

Terei de falar de obras atrasadas e superfaturadas, de estádios inúteis e tudo mais que sustentou o coro do #imaginanacopa, #querovernacopa ou #naovaitercopa durante anos, até a Copa começar. Agora que acabou, chega a dar um vazio. Ninguém podia imaginar o que a gente iria ver na Copa. Que bom que teve Copa.









sábado, 24 de maio de 2014

A curiosidade

Foto: Fernando Gomes/ArquivoZH

Eu era folguista do editor de contracapa do jornal quando deparei com uma foto extraordinária de Fernando Gomes, um dos feras da fotografia de Zero Hora. A ponte sobre a BR-287, em Mata, tinha se partido ao meio, o Fusca ficou dependurado a ponto de despencar na água revolta, a família saiu correndo pelo que sobrou de estrada. A cena era espetacular.

A foto faria parte de uma exposição no Uruguai, por isso voltou a pipocar nas páginas do jornal. Para os contemporâneos de Fernando, era uma das fotos jamais esquecidas. Curiosa, fui pesquisar no sistema interno do jornal que foto era aquela. Descobri que ela completaria 30 anos em maio de 2014. Troquei uma ideia com o editor de foto e deicidmos: vamos voltar lá e contar a história desta família.
Fernando se empolgou com a ideia, até ampliou mais fotos do mesmo negativo (sim, usava-se filmes na época, e em preto e branco!) para dar de presente ao seu Lídio e à dona Maria. Deu para ver nos olhos a emoção de cada um. E a de Fernando também, depois registrada em um vídeo feito na Redação para contar a história daquela foto. Ele já tinha me confidenciado na estrada que era a mais importante da brilhante carreira dele. E agora eu estou no time dos que nunca mais vão esquecer aquela imagem.
O mais surpreendente é que a família do Fusca não estava fugindo da enchente: Lídio queria ver de perto o aguaceiro. Era um curioso de marca maior. Por pouco, ele não se tornou prova viva (?!) daquele ditado: “a curiosidade mata”.
Depois de reencontrar a família do Fusca, fomos a Jaguari, vizinha de Mata. Mais histórias. A última parada foi o arquivo histórico municipal. A Ione, que cuida do museu, pediu para assinarmos o livro de presenças. Vacilei antes de preencher o campo “profissão”. Como me deu um branco desses em meio a um trabalho de reportagem? Pois deu. Parecia que designações como “jornalista” ou “repórter” não cabiam ali. Sei lá.
De volta ao hotel, ao fim da jornada, comecei a ler um livro de Eliane Brum. Então, entendi tudo. “Ser jornalista é mais do que uma profissão, é um ser/estar no mundo”, diz Eliane, na apresentação de A menina quebrada. É assim que me sinto. Uma curiosa no mundo.

domingo, 19 de janeiro de 2014

A hora de escrever os agradecimentos


Cada etapa da vida tem suas emoções particulares, mas uma conquista é sempre uma conquista.
Eu andava, nos últimos dias, meio desanimada com esse negócio de ser mestre. Fiquei pensando que, no fim das contas, o mestrado não serve para muita coisa nesta vida.

No mercado de trabalho, um mestrado acadêmico, quando muito, conta pontos para desempatar um processo seletivo, mas não representa aumento de salário nem de prestígio interno. Para ser professora universitária, o mestrado é insuficiente em universidades de maior reputação. Para concurso público em universidade federal, só com doutorado. Aí já começa a bater aquela crise existencial de pensar num novo projeto e ficar mais quatro anos sofrendo em cima de uma tese. Porque por mais que você goste de estudar - e eu gosto muito! - é sofrido esse processo.

Pois acho que foi justamente esse "sofrimento" que fez aflorar a emoção na hora de escrever os agradecimentos na dissertação.

O momento de escrever os agradecimentos é quando você resolve colocar um ponto final em tudo isso e entregar nas mãos da banca o futuro daquilo que você conseguiu escrever. E quando você resolve colocar um ponto final sempre fica aquela sensação de que não ficou tão bom quando poderia, que faltou ler um outro livro daquele autor, pesquisar um pouco mais sobre aquele conceito, e por aí vai.

Ao mesmo tempo, você não tem mais tempo nem energia para correr atrás do que acha que faltou. O que está escrito é o melhor que você tem para apresentar no momento. E é fruto de meses de renúncia, desde não dormir até mais tarde num sábado, derreter na frente do computador num domingo abaixo de 40 graus em Forno Alegre, deixar de passar o fim de semana na Serra com a família ou de fazer festa com os amigos até o dia clarear. Tudo porque você precisa dissertar.

E aí, na hora de agradecer quem te aguentou sofrendo esse tempo todo, essas lembranças vêm à tona. Então você se dá conta de que terminar esta etapa é importante, sim. É uma vitória acabar com tudo isso podendo ser chamada de mestre. Mas vamos esperar a banca dizer se eu posso mesmo. #oremos!

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Recado da Amazônia

"Espero que os brasileiros tenham saído daqui ainda mais brasileiros."

Assim falou o guia turístico naquela tarde de domingo no porto de Manaus. Dançar com índios dessanos (que significa "homens do dia"), nadar com botos e (tentar) pescar pirarucus tinha feito parte do roteiro. Uma passagem rasteira pelas belezas da Amazônia. Restou um cartão de visitas do guia, que promete mostrar a Amazônia "de verdade" a quem estivesse interessado, como eu.

Ele falava daquele território com a paixão de quem acompanhou as expedições dos Cousteau nos anos 1980. Falava com a autoridade de quem foi segundo tenente do Exército e tomou um tiro no pé em meio à guerra contra o narcotráfico, que escravizava os índios dessanos - aqueles que fomos visitar - para moer folha de coca e fazer a pasta-base da cocaína, inclusive com mão-de-obra infantil.

Soldado ferido em batalha, ele resolveu virar guia após ser forçado a sair da ativa. Quis ser guia turístico no intuito de compartilhar os conhecimentos - e o afeto - por aquela floresta.

Naquela tarde de domingo, não conheci a Amazônia "de verdade", ficou para uma próxima expedição. Serviu, ao menos, para esvaziar aquela má impressão que eu carregava da cidade de Manaus. Uma selva de prédios históricos abandonados e deteriorados. A maioria virou sede para comércio de confecções a R$ 10 e eletrônicos de procedência questionável. Suas fachadas - mal conservadas - estão obstruídas por centenas (talvez milhares) de camelôs que vendem três meias por R$ 5 e CDs "piratas" dos mais diversos estilos musicais.

Esse visual meio Ciudad del Este não teria me incomodado tanto se por trás daquelas tendinhas não estivesse um patrimônio histórico que remete à cidade tida como a Paris dos Trópicos coisa de cento e poucos anos atrás. Naquele tempo, no auge do ciclo da borracha, Manaus era uma das mais ricas cidades do país, culturalmente, inclusive. Ícone maior é o exuberante Teatro Amazonas, com sua cúpula aparentemente destoante do projeto arquitetônico neoclássico.

Eram tempos em que as damas da alta sociedade pagavam caro para mandar lavar seus vestidos na Europa, uma espera de quatro meses para desfilar seus modelitos parisienses nos camarotes do teatro. Acontece que a economia nacional mudou de vedete, as atenções se voltaram para o Sudeste e começou o declínio desta cidade que agora brilha apenas nos livros de história.

Pois desta minha rasteira passagem por lá, trago um recado: Manaus, e a região Norte como um todo, ainda guarda uma de nossas maiores riquezas. Riqueza de valor inestimável. Os "gringos" sabem melhor do que nós. São eles, aliás, que mais passeiam pela selva amazônica, como relata nosso guia. A julgar pelo hostel, faz sentido: franceses, alemães, suecos, coreanos estavam por lá. Não há lugar mais indicado no país para treinar seu inglês do que Manaus - e olha que ainda assim o povo tropeça no idioma. Imagina na Copa? Mas isso é outra conversa.

Nada contra o desfrute das praias de Cancún e Miami, devem entrar no meu roteiro qualquer dia, quem sabe. Mas todo brasileiro deveria, uma vez na vida, tirar férias naquela floresta. Ainda mais para quem é do Sul, como eu, que enche a boca para dizer que é mais gaúcho do que brasileiro, que o Rio Grande do Sul é melhor em tudo, deparar com aquela imensidão é de abalar qualquer soberba sulista. Principalmente sabendo das manobras estrangeiras para tornar aquele território "internacional"...

E olha que só tive um gostinho da Amazônia, mas voltei mesmo mais brasileira. Dado o recado.

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A neve que não esqueço

Foto: Roni Rigon/AgenciaRBS

"A lomba na frente de casa era tão escorregadia que dava quase para esquiar."


Nunca houve, para mim, uma neve como aquela de 1994. Faz quase 20 anos, mas me lembro como se fosse hoje. Se isso significa que já não sou mais tão guriazinha, representa também o quanto um fenômeno da natureza pode ser mágico. 

Era uma sexta-feira, eu estava saindo da escola. Lembro ainda dos pingos do chuvisqueiro caindo no pátio. No caminho até em casa, o chuvisqueiro virou gelo. Era neve! O xaxim do terreno da vizinha do lado ficava branquinho a cada floco que congelava na folhagem.

A mãe foi lá pegar a máquina fotográfica para registrar a cena no álbum de família. Não se tinha essas facilidades de celular com câmera naquela época, nem Facebook para compartilhar . Os registros daquele dia estão em uma estante na casa da minha mãe.

Nevou muito naquela tarde e naquela noite. Na manhã seguinte, um imenso boneco de neve, com direito a cenoura no nariz e manta no pescoço, como naqueles filmes de Natal, decorava o pátio do vizinho da frente. A água do nosso cachorro, que ficava do lado de fora, virou uma grande pedra de gelo. E a lomba na frente de casa era tão escorregadia que dava quase para esquiar.

Vi nevar outras vezes em Gramado depois disso. Mas nunca houve uma nevada como aquela de 94. Desde ontem, quando começaram a povoar minha timeline relatos e fotos da neve que deixou tudo branquinho lá na minha terra outra vez, se atravessam na minha memória flashes dessas cenas. Passem quantos 20 anos se passarem, mesmo que venham outras grandes nevadas, para mim, jamais haverá neve como aquela de 94. Ninguém esquece a primeira neve.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Fazer o que é certo se tornou inesperado

Foto: Lauro Alves

"Pois eu queria saber quando é que honestidade passou a ser um valor-notícia"

Acabo de voltar de uma aula de Introdução ao Jornalismo, disciplina que escolhi para fazer meu estágio de docência no mestrado em Comunicação. O tema da aula de hoje, conduzida pela Thaís Furtado, era critérios de noticiabilidade. Eu já toquei nesse assunto em posts passados. Os "valores-notícia" que fazem com que certos acontecimentos sejam noticiados e outros não.

Pois eu queria saber quando é que "honestidade" passou a ser um valor-notícia. A coisa está tão degringolada que, de repente, fazer o que é certo se tornou inesperado. Isso diz alguma coisa não sobre o jornalismo em particular, mas sobre a sociedade de uma maneira mais ampla.

Falo isso porque também me comovi ao ler o belo texto escrito por minha colega Jaqueline Sordi na edição de Zero Hora de hoje sobre o guri que virou "herói" na escola por ter devolvido a uma senhora de 74 anos a carteira que ela tinha perdido - com R$ 1,5 mil dentro.

Achei bonita a iniciativa da escola de fazer o garoto passar de sala em sala dando "aulas de honestidade". Concordo que bons exemplos também devem sair no jornal, tão criticado por sempre dar mais ênfase ao que é negativo. Mas é impossível não me surpreender com o quanto pode ser surpreendente hoje em dia um menino, ainda mais um menino pobre, ser honesto.

Não é exatamente uma crítica ao fato ter sido noticiado. Aliás, pelo contrário. A repercussão só veio comprovar ao menino que ser honesto vale a pena: ele foi recompensado com o respeito dos colegas da escola, a gratidão da senhora que precisava do dinheiro para comprar os remédios e pagar as contas, os minutos de "fama" e ainda doações em forma de dinheiro e de videogame.

Ele - e todos nós que nos emocionamos com a história dele - já se deu conta que ganhou muito mais do que teria faturado se tivesse embolsado os R$ 1,5 mil que encontrou. Tem gente por aí embolsando muito mais e rindo da nossa cara... e talvez esse seja um dos motivos pelo qual a honestidade se tornou um valor-notícia. Fiquemos com o bom exemplo do guri.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

E eu, o que faço com esses números?


“Aí você, que mal sabe fazer uma regra de três, vai lá para o banco de dados de um IBGE da vida
mexer em estatística.”

Esse negócio de que jornalistas odeiam números é balela. Repórteres talvez nem tanto, mas editores, esses sim, adoram uma estatística. Por conta disso, logo você se convence que um “por cento” a mais sempre ajuda a sustentar uma pauta.

Não é de hoje. Está lá nos estudos sobre critérios de noticiabilidade, desde os anos 1950: amplitude. “Quanto maior o número de pessoas envolvidas, maior a probabilidade de o acontecimento ser noticiado”, para dar uma definição padrão.

Mas vale para outras coisas. Quanto maior o número de carros roubados, quanto maior o número de pedras de crack apreendidas, quanto maior o número de boates sem plano de prevenção contra incêndio, quanto maior o número de processos engavetados, e por aí vai.

Então você passa os dias mendigando algum dado “concreto”. Quando a fonte te diz que denúncias foram recebidas, você já emenda: “quantas”? Aí tem aqueles que também te dizem que não gostam muito de falar em quantidades, não acham isso relevante, mas você insiste: “pelo menos aproximadamente?”.

Como eu dizia, os editores é que gostam de números. Sempre que surge uma pauta de comportamento, ele despeja logo em seguida: “vê se tem alguma pesquisa sobre isso”. E aí você, que mal sabe fazer uma regra de três, vai lá para o banco de dados de um IBGE da vida mexer em estatística. Ah! E agora ainda tem o dito "jornalismo em base de dados" que está bombando nas plataformas digitais.

Na época da escola, nunca aprendi a usar a tal de calculadora científica. Se me largarem uma HP não sei nem onde liga. Mal e mal monto umas fórmulas no Excel. Inclusive, eu tinha escrito com liquid paper na parte de trás da minha calculadora de 1,99 a letra dos Engenheiros do Hawaii: “e eu, o que faço com esses números?”. Estou tentando descobrir.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O jornalismo offline acabou

E ficaram lá, secando térmicas de água quente até lavar o chimarrão, contando causos e pensando: "se o sistema não voltar, como vai ter jornal amanhã?". 

Para repórteres da minha geração, é um exercício constante de imaginação pensar como se fazia jornalismo quando não existia internet nem celular.
Minha agenda de fontes está gravada em um arquivo "na nuvem", assim nutro a ideia de que posso acessá-lo de qualquer lugar e a qualquer tempo. Se precisar de um contato que não esteja ali, encontro com uma pesquisa no Google o telefone de uma assessoria ou coisa que o valha para chegar até quem me interessa. A assessoria, provavelmente, ainda vai me pedir para enviar um e-mail para "formalizar" meu pedido de entrevista. Sem contar as redes sociais, quase sempre um primeiro terreno de busca por "personagens" para matérias sobre determinados temas.

Pois ontem a rede caiu na Redação. E o jornal parou. Por cerca de três horas, dezenas de jornalistas desbaratinados se perguntavam como iriam trabalhar com o sistema fora do ar."Vê se é um problema só nosso ou se está sem internet na cidade inteira", provocou uma editora. "Se eu soubesse para qual número telefonar", refletiu a repórter. Alguém pegou um bloco e saiu para a rua, como que em um gesto de saudosismo - de um tempo bom em que não se fazia jornalismo sentado numa sala climatizada. Mas a maioria se convenceu de que o jeito era esperar a rede voltar. E ficaram lá, secando térmicas de água quente até lavar o chimarrão, contando causos e pensando: "se o sistema não voltar, como vai ter jornal amanhã?".

Sim, porque todo esse drama não é por não poder atualizar o site nem acessar e-mail. Até o jornal impresso do dia seguinte depende da rede. Sem acesso ao computador, não era possível diagramar as páginas, muito menos remeter para o industrial fazer a rodagem. Eu já não estava mais lá para ver, mas consigo imaginar a festa quando a conexão voltou. Sinos tocando e gritos de gol podem ter ecoado pela Redação. Certo é que muitos foram manifestar sua alegria nas redes sociais tão logo conseguiram fazer o login.

Moral da história que, embora o jornal impresso sobreviva, o jornalismo offline acabou. Da matéria-prima ao produto final, todos os processos jornalísticos estão atravessados por tecnologias digitais.