sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Plauto Cruz, o chorão

Plauto Cruz | Foto: Stéfanie Telles
Flautista de 82 anos foi homenageado por jovens músicos de Porto Alegre por seu legado para o choro, considerado o primeiro estilo musical urbano brasileiro

Uma figura simples, singular, Plauto Cruz. A declaração é do radialista Glênio Reis, para o documentário O choro é livre, produzido por alunos de Jornalismo da Unisinos no segundo semestre de 2011. O vídeo abriu a noite de homenagem ao flautista na Livraria Cultura do Shopping Bourbon Country, em Porto Alegre, na quinta-feira, 26.

Quando Plauto apareceu no vídeo pela primeira vez, uma voz infantil no meio da plateia deixou escapar a pergunta: "Ele tá aqui?". Sim, ele estava atrás do telão. Revelado ao público após a exibição do documentário, um Plauto sorridente recebeu os aplausos e agradeceu: "Muito obrigado, muito obrigado e, mais uma vez, muito obrigado". Simples assim. Pegou a flauta e acompanhou o grupo de chorões comandado por Paulinho Parada em Choro para Agnaldo.

Aos 82 anos, ele não só tinha fôlego de sobra para soprar algumas notas como também tinha ouvido crítico o bastante para reclamar da afinação do instrumento: "Tem umas três notas na flauta que desafinam e eu não quero tocar se não sair, peço desculpas a vocês". Como se alguém fosse se importar. A noite era de homenagem, de chorões para um chorão. Um, não. Plauto é o chorão.

Enquanto o grupo tocava Nora, uma valsa composta pelo flautista, o velho chorão descansou a flauta no colo e secou uma lágrima dos olhos. Plauto Cruz, que transforma sentimentos em notas musicais, também se emociona com seus próprios acordes. E assim, o choro _ musical ou lacrimal _ brotava da alma para tomar conta da plateia, tanto quanto do palco. Tanto quanto de Plauto, que, com voz embargada, arriscou-se a dizer que irá compor um novo choro, dedicado ao grupo que o presenteava naquela noite com belos arranjos para suas composições.

Mas quem apresentou uma nova composição foi o jovem bandolinista Elias Barboza _ insistentemente chamado de César por Plauto, arrancando risos do público noite adentro. Chamava-se Choro para Plauto Cruz. "Além de ser um grande mestre do choro, ele era amigo do meu avô, que era acordeonista. Tocar ao lado dele foi uma honra", disse Elias, que tem apenas 24 anos e arrancou elogios rasgados do ídolo com quem dividia o palco naquela noite _ nem levou em conta o nome trocado.

Passado, presente e futuro do choro

O repertório da homenagem teve espaço também para músicas como Naquele Tempo e Carinhoso, de Pixinguinha. Na primeira, Plauto manifestou ter saudades de seus 18 anos. Na segunda, o que se revelou foi o cantor Plauto Cruz, com ajuda da plateia nos conhecidos versos de amor. Amores não faltaram para inspirar o choro do flautista. Ele compôs Força atraente para sua esposa, mãe de seus filhos, já falecida. Tema de Amor era dedicada a uma namorada que tinha 19 anos _ quando ele tinha 50.

Eram tantas lembranças que ele insistiu em cantar mais uma, sem ensaio, na moda "pega pra capar", conforme definição dele mesmo: "É sempre bom lembrar coisas passadas" cantou nos primeiros versos de Porto dos Casais, conhecida na voz de Elis Regina.

Só que Plauto Cruz não é passado, é presente, estava no palco para inspirar a aprendiz de flautista Sofia Lopes de Castro, de oito anos, a dona daquela voz infantil que se ouviu na plateia no início da noite. Quem sabe uma futura chorona? "Trouxe ela aqui para criar a próxima geração do choro, nada melhor do que o grande mestre para dar o exemplo, ainda mais poder ver que ele está lúcido e segue animado com a música", disse a tia de Sofia, Ligiane Panosso.

Prova de que o choro não é nem jovem nem velho, é clássico. E foi Choro Clássico, a música em que Plauto mais "caprichou", segundo ele, a última música da noite. Aliás, a penúltima. Para Plauto, a última "é quando capota". E ele estava de pé, com flauta em punho, roubando a cena no palco. Chorou, sorriu, fez chorar e fez rir. Glênio Reis tinha toda razão. Plauto Cruz é uma figura ímpar, singular. É o chorão em tom maior.

Sobre Plauto Cruz

Plauto de Almeida Cruz nasceu em 15 de novembro de 1929, na cidade de São Jerônimo, a 70 quilômetros de Porto Alegre. Por influência de seu pai, músico, Plauto começou a tocar flauta desde criança. Nos anos 40, Plauto se mudou para Porto Alegre com o desejo de fazer da música o seu instrumento de trabalho. Aos 23 anos, o flautista deu início à carreira. O rádio foi o grande propulsor do sucesso. Plauto gravou 40 LPs com grandes nomes da música brasileira. Como solista, tem quatro LPs e, aos 69 anos, gravou o primeiro dos seus seis CDs. Entre os músicos que tocaram com Plauto estão Lupicínio Rodrigues, Jessé Silva, Tulio Piva, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra e Elis Regina. É considerado um dos principais expoentes do choro, primeiro estilo de música urbana brasileira, surgido em meados do século XIX.

Músicos no show de homenagem

Paulinho Parada _ violão (direção musical)
Elias Barboza _ bandolim
Gerson Barboza _ sete cordas
Juliana Rosenthal _ cavaco
Jorge _ pandeiro

Documentário "O choro é livre"

Direção _ Giórgia Bazotti
Roteiro original _ Felipe Nabinger e Andressa Bohl
Roteiro adaptado _ Giórgia Bazotti e Juliane Pimentel
Diretor de imagem _ Felipe Nabinger
Assistente de direção _ Juliane Pimentel
Produção executiva _ Simone Nunes
Produção _ Taís Seibt e Luana Guimarães
Decupagem _ Eduardo Herrmann, Eduardo Pedroso e Juliane Pimentel
Locução _ Taís Seibt
Edição _ Eduardo Teixeira
Finalização _ Eduardo Teixeira
Trilhas _ Plauto Cruz

*Texto originalmente publicado no JU Online




sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Chegou a hora de pegar o canudo!

"Daqui pra frente,  ficam os amigos mais próximos para a vida e aqueles colegas que vamos reconhecer pela assinatura de um release, um crédito numa foto ou mesmo ver pela TV."


Até hoje, eu me definia neste blog como um “projeto de jornalista”, em consideração pelos colegas que têm diploma para exercer a profissão. A partir de amanhã, eu também terei um diploma. Após longos – mas muito bem vividos! – oito anos de estudos e uma luta árdua para pagar as contas (principalmente a da faculdade). A partir de amanhã, deixo de ser um projeto para ser jornalista diplomada. Na prática, não muda muita coisa. Na teoria, muda tudo.

Sou da opinião de que estamos sempre em formação. O dia em que eu sair de casa de manhã cedo -  cedo mesmo, pelo menos até hoje! - para trabalhar e voltar no fim da tarde sem ter aprendido nada de novo, então não é só a profissão que perde o sentido, mas a vida. Como eu gosto de repetir – e já escrevi em algumas crônicas por aqui – já dizia meu pai, ninguém mandou ser jornalista, “tu escolheu isso aí”. Escolhi, sim, essa profissão. Quis ser jornalista porque eu queria mudar o mundo. Outro dia, dizia eu que, se não podemos mudar o mundo, é possível mudar pelo menos a realidade que nos cerca. Faltou dizer que a realizada mais cerca de nosotros é o interior de nós mesmos.

Já faz um tempo que convivo no ambiente da Redação diariamente – incluindo sábados, domingos e feriados, conforme escala. Taí uma palavra cada vez mais presente nas rodas de conversa de ex-colegas de aula: escala. A outra palavra tão comum quanto e com quase com o mesmo sentido é ‘plantão’. Vamos pra praia todo mundo junto de novo, como naquele Carnaval? “Não sei, tenho que ver minha escala”. Vamos ver o jogo do Grêmio domingo? “Não vai dar, tô no plantão”. E por aí vai. A vida social de um jornalista não é tão simples quanto pensa. Tanto quanto a vida financeira. Mas né, ninguém mandou!

Fato é que, como boa ‘foca’, saio de casa empolgada todas os dias/madrugadas para trabalhar porque sei que algum gigante do jornalismo vai sentar do meu lado em algum momento e me dar uma lição de humildade. Ou então algum motorista que me levar para uma pauta vai me fazer lembrar do quanto um jornalista é capaz de intervir na formação de opinião de cidadãos ditos comuns. Isso sem contar os tais ‘especialistas’ que acabo consultando diariamente para explicitar algum fato cotidiano e tentar traduzir para qualquer leigo, como eu, entender o que está acontecendo.

Fato é que, a partir de amanhã, terei um diploma para colocar na parede. Não que eu não tenha aprendido nada com a faculdade, aprendi muito, claro. Mas o que vai deixar saudade mesmo é o convívio no ambiente universitário. Posso afirmar que vivi intensamente os melhores anos da minha vida até aqui. Seja no tempo do ônibus de Gramado, jogando 66 e parando no posto às quintas-feiras, seja na era Dom Guilherme, entre festas no apê e encontros extraclasse no Bar da Rita, do Alemão ou do Rock. Isso acabou. Daqui pra frente, claro, ficam os amigos mais próximos para a vida e aqueles colegas que vamos reconhecer pela assinatura de um release, um crédito numa foto ou mesmo ver pela TV.

Fato é que, como legítima guria do interior, coloco o ponto final neste texto com muitas lágrimas nos olhos. E um canudo na mão!