quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O que vai entrar para a história



“A ingrata tarefa jornalística de listar os mortos na tragédia que abreviou a vida de 235 jovens que saíram de casa para se divertir”


Passei o sábado praguejando contra o editor que tinha adulterado o lide da minha matéria. "Vinte e cinco de janeiro vai entrar para a história", enfiou ele lá no meu texto sobre uma megaoperação (termo também censurado na minha página, mas que depois vi impresso na capa do jornal) que a polícia tinha feito para colocar ordem no semiaberto.

Foto: Adriana Franciosi/AgênciaRBS

“O dia que entrou para a história é uma expressão muito forte, a gente não sabe o dia de amanhã!", dizia eu para minha colega, enquanto tomávamos umas cuias de chimarrão antes de ir para a beira da praia aproveitar o sol que iluminava nossa folga. Era uma conjunção de duas coisas raras: sol na praia no fim de semana e duas amigas jornalistas conseguirem conciliar a brecha na escala. E parece até que eu estava adivinhando o dia seguinte.

Na manhã de domingo, meu telefone toca às 7h30min. Chamada não identificada. Em celular de repórter, o desconhecido tem nome, e se chama Redação. “Teve um incêndio grande em Santa Maria e precisava que tu viesses para a Redação dar uma mão na cobertura”, disse o coordenador de produção. “Estou em Atlântida, mas qualquer coisa me avisa que eu vejo como voltar”, respondi e voltei a dormir.

Levantei da cama por volta das dez da manhã. “O pessoal do Diário de Santa Maria está trabalhando hoje, hein? Diz que morreram 200 pessoas num incêndio numa boate”, disse o pai da minha colega. Bastava para saber que minha folga tinha terminado. Nossa folga. Olho para o final do corredor e quem está atendendo ao telefonema da Redação é minha colega. Fechou o tempo, hora de voltar.

Se tem um dia que vai entrar para a história, desta vez não restam dúvidas, é 27 de janeiro de 2013. Com os relatos de sobreviventes, a cobrança por explicações e pela punição dos responsáveis, a descrição do cenário que se formou em Santa Maria naquele domingo – cada uma mais comovente do que a outra, compiladas na edição especial de Zero Hora de segunda-feira – vem a ingrata tarefa jornalística de listar os mortos na tragédia que abreviou a vida de 235 jovens que saíram de casa para se divertir. É de tirar o sono da equipe inteira.

“Bora pra festa que a vida é curta”, postou uma jovem no Facebook. “A Kiss nunca mais será a mesma depois da festa de hoje”, escreveu outra no Twitter. Aí a gente começa a ouvir as histórias, contadas por familiares e amigos, compartilhadas pelos colegas que fazem mutirão para escapar da frieza dos números no jornal. Tem o que pediu para o pai adiar a lida na fazenda para domingo, porque queria fazer festa no sábado. Tem o outro que não ia sair de casa, mas resolveu acompanhar os amigos de fora que foram lhe visitar. Tem a funcionária da boate que voltou para dentro para alertar os que tentavam sair pela porta do banheiro. Tem a guria que ia começar o doutorado, o guri que ia entrar para o Exército, a que tinha passado no vestibular, o que ia fazer aniversário dias depois... iam.

A vida é curta e a Kiss nunca mais será a mesma. Nem mais será. Mas as curtas vidas ficarão na história. Pode colocar no lide.

sábado, 3 de novembro de 2012

Um apagão, dois brasis


“Um apagão, dois brasis”. A manchete do jornal Diário de Pernambuco no dia seguinte ao blecaute que deixou às escuras todos os estados do Nordeste e alguns do Norte do Brasil merece os elogios que recebeu em blogs e redes sociais, por parte de seus conterrâneos. 

“O editor-chefe do Diário do Pernambuco merece todas as felicitações por isso”, escreveu Thiago Florentino em seu blog pessoal, apenas para citar um exemplo. Na boa, fiquei fã deste cara. Enquanto os grandes jornais do Nordeste se limitaram a noticiar o apagão pelo gancho da informação dura e simples, informação essa já amplamente comentada na internet e outros meios eletrônicos, o Diário de Pernambuco estampou essa "genial" manchete em sua capa, para me apropriar do adjetivo atribuído pelo site Nação Nordestina em sua página no Facebook. 

Entre as demais chamadas de capa, lê-se o seguinte item: “Preconceito – nas redes sociais, o apagão do Nordeste foi o assunto mais comentado no país,porém a onda de insultos e ironias aos nordestinos reapareceu das piores formas. Veja o que foi dito no Twitter”. No site do veículo, advogados comentam o caso e avisam que há implicações jurídicas para o preconceito manifestado nas redes sociais, na matéria intitulada #apagão: ofensa virtual, consequência real

Esta é outra abordagem interessante porque vai além de apenas mencionar a onda de preconceito gerada pelo apagão entre os usuários da rede social, mas estabelece nexos com outro caso semelhante – o da estudante Mayara Petruso. Em 2010, ela foi condenada a um ano de prisão pela Justiça Federal de São Paulo, pelo crime de racismo por ter divulgado em sua página pessoal do Twitter ofensas aos nordestinos. Gente, é para isso que serve o jornalismo! Já dizia Adelmo Genro Filho: jornalismo é uma forma social de conhecimento. Por isso, deve estabelecer nexos que ultrapassam o senso comum - e o que dizem as redes sociais.

Mas o Diário de Pernambuco solou nesse desdobramento para a cobertura do apagão. Não só pelo já mencionado panorama dos concorrentes regionais, mas também porque nos jornais do centro do país nem mesmo colunistas de tecnologia comentaram a “disputa” no Twitter. De forma bastante tímida, o site da Folha de S. Paulo citou a repercussão na seção Painel do Leitor “Usuários estão aproveitando o assunto para criticarem os Estados de outra região. Enquanto os moradores da região Sudeste fazem piadas sobre nordestinos, esses lembram que é para lá que as pessoas viajam no verão”.

Não é que a mídia tenha faltado na cobertura ao acontecimento propriamente dito. O blecaute foi o tema de abertura do Jornal Nacional de 26 de outubro, esteve em destaque o dia todo nos principais portais de notícias, entre eles o próprio site do jornal Folha de S. Paulo e portais como G1 e Terra. Mesmo no Sul, o jornal Zero Hora, por exemplo, suitou o tema com um questionamento regional, sobre a possibilidade de desabastecimento durante o verão no Rio Grande do Sul.

As redes sociais até foram citadas no noticiário, principalmente nas primeiras horas após o blecaute, quando as informações eram ainda escassas. Esse uso demonstra uma interface legítima entre redes sociais e acontecimento e até mesmo entre leitor e repórter. No entanto, a perspicácia (solitária) do editor-chefe do Diário de Pernambuco mostra como a grande mídia ainda ignora, de certa forma, o que se discute nesses ambientes. 


É claro que o acontecimento é soberano e, nesse caso, o acontecimento era, de fato, o blecaute no Nordeste, que logo se sustentou na pauta dos veículos da mídia estabelecida. O preconceito manifestado pelos usuários da rede social de maneira alguma deveria se sobrepor à pauta do dia – o apagão – mas não precisaria ter sido silenciado como foi. A interpretação e as repercussões desse episódio, salvo o jornal pernambucano, se restringiram ao mesmo espaço em que começaram: redes sociais e blogs.

Sou gaúcha e até me divirto com o bairrismo exacerbado do Rio Grande do Sul, mas não vejo motivo algum para um problema como o apagão disparar esse tipo de manifestação xenofóbica nas redes sociais. Aliás, não vejo sentido algum no preconceito, regional ou qualquer outro. E acho que o jornalismo também deixa de fazer sentido quando ignora esse tipo de repercussão, perdendo a oportunidade de discutir questões importantes sobre os valores (ou desvalores) do senso social. Palmas para o Diário de Pernambuco.

De onde saiu isso:

Fiquei acompanhando a repercussão do apagão no Twitter, desafiada pelo professor Ronaldo Henn, para finalizar atividades de um seminário de Redes Sociais, no mestrado da Unisinos. 

Na noite de 25 de outubro de 2012, um problema de abastecimento de energia elétrica atingiu a região de forma generalizada. Em alguns pontos, a eletricidade foi restabelecida apenas no dia seguinte. 

Nesse meio tempo, o “apagão” ficou entre os temas mais comentados do Twitter em dois momentos distintos. Primeiro, os tuítes davam conta de comunicar o apagão propriamente dito, por meio da hashtag #apagao. Horas depois, a mesma tag passou a povoar a timeline com comentários preconceituosos de internautas, aparentemente, do Sudeste e do Sul do país. Surge, então, uma segunda tag, usada como “resposta” aos sulistas preconceituosos: #VivaoNordeste. A tag virou uma espécie de campanha pelo orgulho nordestino, mobilizando usuários da rede, e logo superou a hashtag #apagao nos TTs (trend topics) do Brasil, ocupando a primeira posição na manhã do dia 26 de outubro de 2012. 

Salvo publicações isoladas, o desvio de rumo da discussão do acontecimento nas redes sociais foi solenemente ignorada pelos veículos da grande imprensa, inclusive os do Nordeste.