domingo, 10 de fevereiro de 2013

Crônicas da Passarela do Samba

Quando a Redação foi para a Avenida...

(Foto: Adriana Franciosi/AgenciaRBS)

O primeiro acorde do cavaquinho ecoou no Porto Seco pontualmente às 23h45min de sexta-feira. Com gritos de guerra em ritmo africano, a União da Vila do IAPI entrou na passarela do samba para abrir os desfiles do grupo especial do Carnaval de Porto Alegre debaixo de chuva.

A bela coreografia da comissão de frente, representando um confronto entre negros africanos e soldados portugueses, com direito a caravela, deslizou com graça sobre a passarela para defender o enredo em homenagem à ilha africana de Cabo Verde.

Mas o piso escorregadio pelo derretimento do cal fez com que a madrinha de bateria da escola Quell Rodrigues perdesse o gingado. A morena torceu o pé no meio da avenida. Caiu, levantou, sambou de novo sob os aplausos da arquibancada, mas terminou carregada pelos colegas até a dispersão.

A pista molhada ainda faria outras vítimas ao longo da madrugada, de passistas a porta-bandeira, apesar de os anjos de Nossa Senhora terem fechado acordo com o vizinho celeste São Pedro, que abençoou os Acadêmicos de Gravataí com uma trégua na chuva. Homenageando os 250 anos de sua cidade-sede, a escola colocou na avenida de anjos a gaúchos pilchados em carros alegóricos com até 15 metros de altura.

A terceira escola a desfilar levantou a torcida, como que transformando a passarela do samba em estádio de futebol. Na verdade, estádios. A Unidos de Vila Isabel apostou em jargões do hino tricolor para conquistar o público com o enredo em homenagem aos estádios do Grêmio. Aos cantos de “Sou imortal, sou tricolor” e “Nada pode ser maior”, a Vila fez se agitarem bandeiras em toda a passarela.

Tarciso Flecha Negra foi um dos destaques, comandando o carro alegórico que representou o Olímpico Monumental, com avalanche e tudo.

- Eu devo tudo a esse céu azul - resumiu o ex-jogador, que se disse emocionado por fazer parte da homenagem ao clube onde jogou por 13 anos.

Se a avalanche na avenida ocorreu sem grandes problemas, a Arena, por outro lado, deu defeito até na passarela. O carro que representaria o novo estádio gremista não conseguiu manobrar na concentração e acabou não entrando na avenida. Com isso, algumas alas mudaram de ordem, interferindo na evolução da escola.


Mais problemas ainda enfrentou a Praiana. A comissão de frente da verde-rosa entrou sem fantasia. Diversos carros entraram no desfile sem destaques e alguns passistas sambaram com adereços faltando nas fantasias. O destaque da escola, que apresentou um enredo sobre a luta contra o crack, ficou para a afinação da bateria, que apostou em instrumentos pouco comuns na harmonia, como o violino.


- Nunca tinha pensado em colocar violino no samba, até meus colegas de orquestra se surpreenderam, mas acho que ficou interessante misturar alguns acordes nas partes mais sentimentais da música - disse o integrante da Orquestra Jovem do Rio Grande do Sul, Dhouglas Umabel Mota da Silva, 14 anos, que ensaiou com a Praiana nos últimos dois meses.

Com a mesma pontualidade com que começou, terminou a primeira noite de desfiles na Capital. Terminou, também, com a mesma garoa sobre o Porto Seco. Mas nem o cansaço pela maratona de desfiles, nem a chuva que voltava a cair afetaram a empolgação dos simpatizantes da Bambas da Orgia. A última e, pelo que se viu nas arquibancadas, mais esperada escola a entrar na avenida, protagonizou um desfile empolgante. Pelo menos três vezes, a bateria calou e ressoou apenas a voz da multidão cantando: “Vou chorar ao ver desfilar meu amor maior, sou Bambas da Orgia e levo a emoção da águia no meu coração”.

A empolgação tomou conta do Porto Seco do início ao fim da segunda noite de desfiles das escolas de samba do grupo especial do Carnaval de Porto Alegre. A chuva, que prejudicou as primeiras escolas a entrarem na avenida na sexta-feira, não apareceu no sábado. O ritmo alegre do samba contagiou a arquibancada, que vibrou com cada atração, da primeira à última escola.

Quem abriu a segunda noite foi a Estado Maior da Restinga, para defender o enredo que fala de superação. Cadeirantes fizeram parte de alas e foram destaques em carros alegóricos da escola, que contou com a participação da finalista do concurso Musa do Carnaval do programa Caldeirão do Huck, Viviane Rodrigues.

O Império da Zona Norte apostou na mistura de duas paixões e levou o futebol para a passarela do samba, homenageando os presidentes do Inter, Vitório Piffero e Fernando Carvalho, que desfilaram junto com a escola. A bateria protagonizou uma parada eletrizante, que ergueu a arquibancada, repleta de bandeiras coloradas.

A Embaixadores do Ritmo aqueceu a voz com o Canto Alegretense, puxado por Ernesto Fagundes na concentração da escola. Da comissão de frente com coreografias de danças típicas gaúchas ao mestre de bateria tomando chimarrão, a Embaixadores representou a cidade de Alegrete e homenageou a família Fagundes, contando com a presença de Nico, Neto e Bagre na passarela.


A Imperatriz Dona Leopoldina transformou mitos e lendas do “Velho Chico” em carros alegóricos e fantasias de caipora, minhocão e boitatá. O ritmo envolvente do samba-enredo da escola foi entoado com energia pelo público em pelo menos três longas paradas da bateria, mostrando que a Laranja soube se deixar levar pelas águas do Opará para embalar o sambódromo.

Para acabar com a mesma empolgação, o pedido da última escola de samba a desfilar pelo grupo especial do Carnaval de Porto Alegre foi facilmente atendido pelo público: “Levanta que a escola do povo acabou de chegar”. Com enredo sobre maquiagem, a Imperadores do Samba levantou a torcida, numerosa e animada, que esperou até o fim para ver a escola passar.

(textos para a cobertura do Carnaval 2013 de Zero Hora)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O que vai entrar para a história



“A ingrata tarefa jornalística de listar os mortos na tragédia que abreviou a vida de 235 jovens que saíram de casa para se divertir”


Passei o sábado praguejando contra o editor que tinha adulterado o lide da minha matéria. "Vinte e cinco de janeiro vai entrar para a história", enfiou ele lá no meu texto sobre uma megaoperação (termo também censurado na minha página, mas que depois vi impresso na capa do jornal) que a polícia tinha feito para colocar ordem no semiaberto.

Foto: Adriana Franciosi/AgênciaRBS

“O dia que entrou para a história é uma expressão muito forte, a gente não sabe o dia de amanhã!", dizia eu para minha colega, enquanto tomávamos umas cuias de chimarrão antes de ir para a beira da praia aproveitar o sol que iluminava nossa folga. Era uma conjunção de duas coisas raras: sol na praia no fim de semana e duas amigas jornalistas conseguirem conciliar a brecha na escala. E parece até que eu estava adivinhando o dia seguinte.

Na manhã de domingo, meu telefone toca às 7h30min. Chamada não identificada. Em celular de repórter, o desconhecido tem nome, e se chama Redação. “Teve um incêndio grande em Santa Maria e precisava que tu viesses para a Redação dar uma mão na cobertura”, disse o coordenador de produção. “Estou em Atlântida, mas qualquer coisa me avisa que eu vejo como voltar”, respondi e voltei a dormir.

Levantei da cama por volta das dez da manhã. “O pessoal do Diário de Santa Maria está trabalhando hoje, hein? Diz que morreram 200 pessoas num incêndio numa boate”, disse o pai da minha colega. Bastava para saber que minha folga tinha terminado. Nossa folga. Olho para o final do corredor e quem está atendendo ao telefonema da Redação é minha colega. Fechou o tempo, hora de voltar.

Se tem um dia que vai entrar para a história, desta vez não restam dúvidas, é 27 de janeiro de 2013. Com os relatos de sobreviventes, a cobrança por explicações e pela punição dos responsáveis, a descrição do cenário que se formou em Santa Maria naquele domingo – cada uma mais comovente do que a outra, compiladas na edição especial de Zero Hora de segunda-feira – vem a ingrata tarefa jornalística de listar os mortos na tragédia que abreviou a vida de 235 jovens que saíram de casa para se divertir. É de tirar o sono da equipe inteira.

“Bora pra festa que a vida é curta”, postou uma jovem no Facebook. “A Kiss nunca mais será a mesma depois da festa de hoje”, escreveu outra no Twitter. Aí a gente começa a ouvir as histórias, contadas por familiares e amigos, compartilhadas pelos colegas que fazem mutirão para escapar da frieza dos números no jornal. Tem o que pediu para o pai adiar a lida na fazenda para domingo, porque queria fazer festa no sábado. Tem o outro que não ia sair de casa, mas resolveu acompanhar os amigos de fora que foram lhe visitar. Tem a funcionária da boate que voltou para dentro para alertar os que tentavam sair pela porta do banheiro. Tem a guria que ia começar o doutorado, o guri que ia entrar para o Exército, a que tinha passado no vestibular, o que ia fazer aniversário dias depois... iam.

A vida é curta e a Kiss nunca mais será a mesma. Nem mais será. Mas as curtas vidas ficarão na história. Pode colocar no lide.