segunda-feira, 5 de agosto de 2013

E eu, o que faço com esses números?


“Aí você, que mal sabe fazer uma regra de três, vai lá para o banco de dados de um IBGE da vida
mexer em estatística.”

Esse negócio de que jornalistas odeiam números é balela. Repórteres talvez nem tanto, mas editores, esses sim, adoram uma estatística. Por conta disso, logo você se convence que um “por cento” a mais sempre ajuda a sustentar uma pauta.

Não é de hoje. Está lá nos estudos sobre critérios de noticiabilidade, desde os anos 1950: amplitude. “Quanto maior o número de pessoas envolvidas, maior a probabilidade de o acontecimento ser noticiado”, para dar uma definição padrão.

Mas vale para outras coisas. Quanto maior o número de carros roubados, quanto maior o número de pedras de crack apreendidas, quanto maior o número de boates sem plano de prevenção contra incêndio, quanto maior o número de processos engavetados, e por aí vai.

Então você passa os dias mendigando algum dado “concreto”. Quando a fonte te diz que denúncias foram recebidas, você já emenda: “quantas”? Aí tem aqueles que também te dizem que não gostam muito de falar em quantidades, não acham isso relevante, mas você insiste: “pelo menos aproximadamente?”.

Como eu dizia, os editores é que gostam de números. Sempre que surge uma pauta de comportamento, ele despeja logo em seguida: “vê se tem alguma pesquisa sobre isso”. E aí você, que mal sabe fazer uma regra de três, vai lá para o banco de dados de um IBGE da vida mexer em estatística. Ah! E agora ainda tem o dito "jornalismo em base de dados" que está bombando nas plataformas digitais.

Na época da escola, nunca aprendi a usar a tal de calculadora científica. Se me largarem uma HP não sei nem onde liga. Mal e mal monto umas fórmulas no Excel. Inclusive, eu tinha escrito com liquid paper na parte de trás da minha calculadora de 1,99 a letra dos Engenheiros do Hawaii: “e eu, o que faço com esses números?”. Estou tentando descobrir.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O jornalismo offline acabou

E ficaram lá, secando térmicas de água quente até lavar o chimarrão, contando causos e pensando: "se o sistema não voltar, como vai ter jornal amanhã?". 

Para repórteres da minha geração, é um exercício constante de imaginação pensar como se fazia jornalismo quando não existia internet nem celular.
Minha agenda de fontes está gravada em um arquivo "na nuvem", assim nutro a ideia de que posso acessá-lo de qualquer lugar e a qualquer tempo. Se precisar de um contato que não esteja ali, encontro com uma pesquisa no Google o telefone de uma assessoria ou coisa que o valha para chegar até quem me interessa. A assessoria, provavelmente, ainda vai me pedir para enviar um e-mail para "formalizar" meu pedido de entrevista. Sem contar as redes sociais, quase sempre um primeiro terreno de busca por "personagens" para matérias sobre determinados temas.

Pois ontem a rede caiu na Redação. E o jornal parou. Por cerca de três horas, dezenas de jornalistas desbaratinados se perguntavam como iriam trabalhar com o sistema fora do ar."Vê se é um problema só nosso ou se está sem internet na cidade inteira", provocou uma editora. "Se eu soubesse para qual número telefonar", refletiu a repórter. Alguém pegou um bloco e saiu para a rua, como que em um gesto de saudosismo - de um tempo bom em que não se fazia jornalismo sentado numa sala climatizada. Mas a maioria se convenceu de que o jeito era esperar a rede voltar. E ficaram lá, secando térmicas de água quente até lavar o chimarrão, contando causos e pensando: "se o sistema não voltar, como vai ter jornal amanhã?".

Sim, porque todo esse drama não é por não poder atualizar o site nem acessar e-mail. Até o jornal impresso do dia seguinte depende da rede. Sem acesso ao computador, não era possível diagramar as páginas, muito menos remeter para o industrial fazer a rodagem. Eu já não estava mais lá para ver, mas consigo imaginar a festa quando a conexão voltou. Sinos tocando e gritos de gol podem ter ecoado pela Redação. Certo é que muitos foram manifestar sua alegria nas redes sociais tão logo conseguiram fazer o login.

Moral da história que, embora o jornal impresso sobreviva, o jornalismo offline acabou. Da matéria-prima ao produto final, todos os processos jornalísticos estão atravessados por tecnologias digitais.