quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Fazer o que é certo se tornou inesperado

Foto: Lauro Alves

"Pois eu queria saber quando é que honestidade passou a ser um valor-notícia"

Acabo de voltar de uma aula de Introdução ao Jornalismo, disciplina que escolhi para fazer meu estágio de docência no mestrado em Comunicação. O tema da aula de hoje, conduzida pela Thaís Furtado, era critérios de noticiabilidade. Eu já toquei nesse assunto em posts passados. Os "valores-notícia" que fazem com que certos acontecimentos sejam noticiados e outros não.

Pois eu queria saber quando é que "honestidade" passou a ser um valor-notícia. A coisa está tão degringolada que, de repente, fazer o que é certo se tornou inesperado. Isso diz alguma coisa não sobre o jornalismo em particular, mas sobre a sociedade de uma maneira mais ampla.

Falo isso porque também me comovi ao ler o belo texto escrito por minha colega Jaqueline Sordi na edição de Zero Hora de hoje sobre o guri que virou "herói" na escola por ter devolvido a uma senhora de 74 anos a carteira que ela tinha perdido - com R$ 1,5 mil dentro.

Achei bonita a iniciativa da escola de fazer o garoto passar de sala em sala dando "aulas de honestidade". Concordo que bons exemplos também devem sair no jornal, tão criticado por sempre dar mais ênfase ao que é negativo. Mas é impossível não me surpreender com o quanto pode ser surpreendente hoje em dia um menino, ainda mais um menino pobre, ser honesto.

Não é exatamente uma crítica ao fato ter sido noticiado. Aliás, pelo contrário. A repercussão só veio comprovar ao menino que ser honesto vale a pena: ele foi recompensado com o respeito dos colegas da escola, a gratidão da senhora que precisava do dinheiro para comprar os remédios e pagar as contas, os minutos de "fama" e ainda doações em forma de dinheiro e de videogame.

Ele - e todos nós que nos emocionamos com a história dele - já se deu conta que ganhou muito mais do que teria faturado se tivesse embolsado os R$ 1,5 mil que encontrou. Tem gente por aí embolsando muito mais e rindo da nossa cara... e talvez esse seja um dos motivos pelo qual a honestidade se tornou um valor-notícia. Fiquemos com o bom exemplo do guri.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

E eu, o que faço com esses números?


“Aí você, que mal sabe fazer uma regra de três, vai lá para o banco de dados de um IBGE da vida
mexer em estatística.”

Esse negócio de que jornalistas odeiam números é balela. Repórteres talvez nem tanto, mas editores, esses sim, adoram uma estatística. Por conta disso, logo você se convence que um “por cento” a mais sempre ajuda a sustentar uma pauta.

Não é de hoje. Está lá nos estudos sobre critérios de noticiabilidade, desde os anos 1950: amplitude. “Quanto maior o número de pessoas envolvidas, maior a probabilidade de o acontecimento ser noticiado”, para dar uma definição padrão.

Mas vale para outras coisas. Quanto maior o número de carros roubados, quanto maior o número de pedras de crack apreendidas, quanto maior o número de boates sem plano de prevenção contra incêndio, quanto maior o número de processos engavetados, e por aí vai.

Então você passa os dias mendigando algum dado “concreto”. Quando a fonte te diz que denúncias foram recebidas, você já emenda: “quantas”? Aí tem aqueles que também te dizem que não gostam muito de falar em quantidades, não acham isso relevante, mas você insiste: “pelo menos aproximadamente?”.

Como eu dizia, os editores é que gostam de números. Sempre que surge uma pauta de comportamento, ele despeja logo em seguida: “vê se tem alguma pesquisa sobre isso”. E aí você, que mal sabe fazer uma regra de três, vai lá para o banco de dados de um IBGE da vida mexer em estatística. Ah! E agora ainda tem o dito "jornalismo em base de dados" que está bombando nas plataformas digitais.

Na época da escola, nunca aprendi a usar a tal de calculadora científica. Se me largarem uma HP não sei nem onde liga. Mal e mal monto umas fórmulas no Excel. Inclusive, eu tinha escrito com liquid paper na parte de trás da minha calculadora de 1,99 a letra dos Engenheiros do Hawaii: “e eu, o que faço com esses números?”. Estou tentando descobrir.