Ao dar as boas vindas aos turistas brasileiros, peruanos, mexicanos, italianos e franceses que estavam na van com destino à La Bombonera, o guia questionou:
- Vocês já viram um estádio que “habla”? Pois hoje vocês vão ver.
“La Bombonera habla” era a capa do esportivo argentino Olé naquele dia. Domingo, 31 de agosto de 2014.
O Boca Juniors, passando por péssima fase no campeonato nacional, no qual não está nem entre os 10 primeiros colocados, enfrentaria o então líder, Vélez Sarsfield, 100% de aproveitamento. O ingrediente extra era a rescisão do contrato com o treinador Carlos Bianchi, simplesmente o treinador que mais títulos conquistou à frente do Boca – foram três Libertadores, só para dar uma ideia – mas que amargava três derrotas em quatro jogos pelo campeonato argentino. Bianchi acreditava em recuperação no clássico, porém a diretoria do clube não lhe deu chance. Em resposta, a fanática torcida prometia “hablar”. No caminho para a Bombonera, faixas de apoio a Bianchi davam o tom.
O Boca tem 130 mil sócios e La Bombonera só tem capacidade para 55 mil. Tenho a impressão de que se existisse um estádio capaz de abrigar 130 mil, todos estariam lá. O mesmo não se pode dizer da Arena do Grêmio, em que há muitos sócios e poucos torcedores.
No caso do Boca, a única forma de entrar em um jogo é sendo sócio, não são vendidos ingressos avulsos. Os turistas, como eu, encontram pacotes para ir ao jogo graças a uma gambiarra com carteirinhas de sócios que não vão ao estádio por alguma razão. Prática questionável, ok, ainda mais que é preciso estar disposto a pagar algo em torno de 100 dólares para ver um jogo peleado e de dribles escassos. Somente apaixonados por futebol entenderão minha opção.
Fiquei atrás do gol, no terceiro anel da Bombonera, ligeiramente ao lado de “La 12”. Trapos estendidos, bandeiras tremulando, gente empoleirada nas grades e a banda ditando o ritmo. Ao redor do estádio, com torcida única, medida extrema para conter as brigas entre torcidas, os xeneizes acompanhavam os gritos de guerra. Até aquele torcedor meio tiozinho que, na antiga social do Olímpico, xingávamos de “secador”, subia nas cadeiras e empurrava o time, aos berros. Eram todos incansáveis, mesmo quando o Vélez, na única vez em que chegou ao ataque durante todo o primeiro tempo, aos 44 minutos, abriu o placar. E contagiaram até os turistas quando o Boca voltou a ser o Boca, empatou num gol de escanteio, virou num rebote e ainda achou um terceiro gol de contragolpe, quando já estava com um jogador a menos – teve um expulso após um carrinho na lateral do gramado, no campo de defesa, aos 38 do segundo tempo. Nada mais típico.
A Bombonera não só “hablou”, como cantou e gritou. Pulsou como nunca tinha visto um estádio pulsar. A Arena ainda é muda. Tão muda que gritos racistas falam mais alto. O Olímpico fez ouvir a sua voz em momentos importantes da história Tricolor. Talvez tenha sido apenas coincidência e não passou de um golpe de sorte presenciar um desses momentos em La Bombonera. Pois então que sorte a minha, pibe! Um dia vou poder contar aos meus netos que vi um estádio “hablar”.
*Uma versão deste texto foi publicada em Zero Hora, na seção De fora da área (4 de setembro de 2014)
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Jornalismo dói
O jornalismo, às vezes, é doloroso. Na verdade, quase sempre. E desde sempre. Mas tenho a impressão de que é mais doloroso atualmente. Pelo menos para quem faz jornalismo.
Na maior parte do tempo, o jornalismo é pouco profundo justamente porque não há tempo para se aprofundar. Às vezes são decisões meramente jornalísticas que acabam passando a impressão de superficialidade. Preferir termos do senso comum a expressões, digamos, mais filosóficas, por exemplo. É um artifício jornalístico para atingir um público maior, mas sempre soa como ignorância para os mais entendidos.
Outro dia escrevi sobre moradores de rua e levei uma vaia nas redes sociais. "Se a repórter tivesse pesquisado direito, saberia que o correto é pessoas em situação de rua, isso só mostra a decadência do jornalismo". Não quero aqui falar de certo e errado, mas a presunção do comentário é, no mínimo, injusta. E toda busca por estatísticas? E o trabalho de campo? E as entrevistas? É tudo fruto de imaginação? Não, é trabalho jornalístico. O tal leitor jamais saberá que, para escrever aquelas 50 linhas, além de bater de viaduto em viaduto na cidade, eu li dezenas de artigos acadêmicos e publicações oficiais, portanto, sim, eu tinha conhecimento do termo "pessoas em situação de rua" e até sou capaz de compreender que ele designa uma condição social muito mais complexa e, de certa forma, menos pejorativa do que o usual "moradores de rua". Mas isso era o mais importante?
Jornalisticamente, achei que não era. Posso ter me enganado, mas os demais comentários sobre o mesmo tema me oferecem poucos indícios de que usar um termo novo mudaria os sentidos da audiência sobre o que escrevi. É que esse tipo de assunto dói para quem lê. Dá para perceber pelos comentários mais perversos que esses temas são capazes de provocar. Dói demais, para quem escreve, ler o que se comenta sobre o que você escreveu. É de perder a esperança na humanidade - e no jornalismo.
Só que um jornal que se preze precisa tocar nas feridas da sociedade. Falar de assuntos dolorosos no jornal estimula o debate em torno da cura das nossas mazelas. Era isso que eu ouvia na faculdade. Mas o mundo de hoje sequer suporta um botão "não curtir" na rede social. É proibido se aborrecer na internet. Aborrecer os outros, então? A internet só serve pra gente se divertir.
Portanto, não venha lá o Seu Jornalismo me falar do que eu prefiro não saber. Faça uma coisa mais descontraída, uma lista de filmes para ver no Netflix, um testezinho para saber qual personagem do Game of Thrones mais se parece comigo. E o jornalismo, claro, vai lá e faz. Afinal, a máxima agora é estar atento aos anseios da audiência. Além do mais, não pega bem ficar dando motivo para falarem mal do que você publica. O negócio é multiplicar curtidas.
Nada contra o jornalismo de entretenimento, é uma prática legítima e sempre esteve aí. Nada contra, também, ao debate aberto nas tais redes sociais, é um avanço para a liberdade de expressão. A questão é que essa ditadura da curtição, essa necessidade de ser cada vez mais interessante do que importante faz do jornalismo um pouco mais doloroso hoje em dia.
Enfim, se ficou para trás aquela ilusão dos tempos de faculdade de querer "transformar a sociedade", o que nada mais é do que um eufemismo para "mudar o mundo", depois de alguns anos de jornalismo, posso dizer que uma certeza eu tenho: se não pude mudar o mundo, pelo menos o jornalismo mudou a minha forma de ver o mundo. E até isso dói de vez em quando.
Assinar:
Postagens (Atom)