quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Levantando acampamento


“A experiência de presenciar a tragédia in loco vale para pensar em tudo o que não queremos que a correnteza leve embora”

O programa (de índio) já estava combinado desde o ano passado. Há meses vínhamos esquematizando este acampamento. Data, local e cardápio estavam programados para o encontro. Só não havíamos previsto uma coisa: a chuva. Pelo menos não aquela chuva.

Eram 6h30min quando os primeiros levantaram de seu colchão inflável e saíram barraca afora. Observando as nuvens no alto dos morros, avisaram: “Vai chover”. A previsão foi repetida por todos os 14 reunidos no camping. No entanto, cada qual estava mais despreocupado: uns preparavam um sanduíche, outros tocavam violão, outros ainda esquentavam água para o chimarrão. E foi só o tempo de duas cuias para o temporal desabar.

Começamos a empilhar os pertences na “área de convivência” do acampamento, que nada mais era do que uma lona. Só que o granizo seria demais para ela, a ponto de um dos presentes soltar o alerta: “Deixem tudo e se salvem!”. Desespero de uns, tranqüilidade de outros. Nosso cinegrafista amador narrava a fuga dos demais com uma frase repetida cada vez com maior ênfase: “Sente o desespero das pessoas”.

Pudera. O mundo caindo, a água do rio subindo, notícias chegando da cidade, do tipo: “Vamos logo que a água está invadindo a estrada”. Dava para pensar que ficaríamos por ali mesmo, debaixo da lona. Mas os instantes de desespero foram superados logo, afinal, bastava levantar o acampamento e voltar para casa. Diferentemente dos vizinhos do camping que perderam a própria casa.

Tudo o que perdi foi um velho baralho de 66. O suficiente para refletir como é importante “levantar acampamento” da vidinha mais ou menos que nossa rotina lotada nos impõe no dia a dia. A experiência de presenciar a tragédia in loco vale para pensar em tudo o que não queremos que a correnteza leve embora: a companhia dos amigos, as histórias para contar, a solidariedade para ajudar o outro a se proteger da chuva, o bom-humor suficiente para abrir uma cerveja em meio à tormenta.

Antes que sejamos nós as vítimas de algum desastre, convém reservar alguns momentos para programas – nem que sejam de índio! – na companhia de pessoas que valem a pena. Na certeza de termos encontrado pelo menos umas 14 desse tipo, terminamos aquele dia trágico num churrasco um tanto cômico, com direito a paródias e declamações, onde até combinamos a próxima aventura.

Se for preciso, deixo tudo, tudo mesmo, para salvar a presença dessas pessoas na minha vida. Pessoas desse tipo, das que não queremos que a correnteza leve embora, são as que costumamos chamar de AMIGOS.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Passe adiante

“No mundo real, um favor é uma espécie de moeda de troca, mas o trabalho de Estudos Sociais de um menino da 7ª série chamado Trevor inverte essa lógica”

Quando chove nas férias não tem jeito, a melhor companhia é um bom filme. Como eu já previa que pudesse ocorrer de uma frente fria passar pela Serra, confisquei alguns exemplares da videoteca do meu namorado antes de pegar o rumo de Gramado para curtir uma semana de inverno com a família – em pleno verão.

Então, éramos nós quatro: minha mãe, eu, o chimarrão e o filme Corrente do bem, de Mimi Leder, com Kevin Spacey e Helen Hunt. Um filme propício, digamos, para uma semana em que os tremores de terra no Haiti não saíam da mídia.

No filme, um professor de Estudos Sociais desafia seus alunos da 7ª série a terem uma idéia que possa mudar o mundo. Brilhante! Esse mesmo professor deu um dicionário a cada aluno no primeiro dia de aula, para que eles procurassem o significado das palavras que não conheciam. E só a resposta dele à pergunta sarcástica de um dos alunos já teria valido as duas horas de filme:

- E o senhor, o que tem feito para mudar o mundo?

- Eu acordo cedo todos os dias e venho aqui dar aula para vocês.

Não precisava mais nada. Professores assim, que acreditam ser capazes de mudar o mundo apenas exercendo sua profissão conforme o juramento que fizeram no dia da formatura, estão em falta. Jornalistas também. A trama do filme se desenrola tendo a investigação jornalística como fio condutor. O repórter havia recebido um Jaguar como “favor” de um estranho que lhe mandou “passar adiante” e não sossegou enquanto não descobriu onde tinha começado aquela maluquice. No mundo real, um favor é uma espécie de moeda de troca. Faço algo a você e você fica eternamente grato, como se me devesse algo em retribuição.

O trabalho de Estudos Sociais de um menino da 7ª série chamado Trevor inverte essa lógica: eu te faço um favor e você paga a dívida fazendo favores a outras três pessoas que devem retribuir a gentileza a outras três pessoas e assim por diante. Bingo! É assim que se transforma o mundo, ajudando a melhorar o mundinho à nossa volta.

Olhando assim, parece simples demais, ou até mesmo insignificante essa idéia de ajudar três pessoas ao redor. Queremos fazer coisas grandiosas para mudar o mundo. Mas veja o filme e pense melhor.

Em tempos de tragédias como a do Haiti sobram voluntários cheios de boa vontade querendo fazer as malas e partir para salvar o mundo. Não percebem que têm essa chance todos os dias, ali mesmo, onde estão. Mudar o mundo está ao nosso alcance, como está para uma criança da 7ª série. Passe adiante.