domingo, 7 de março de 2010

Estação terminal


“Adormeci e nem me dei conta de quantas estações se passaram. Despertei somente no fim da linha.”

Abro os olhos de sobressalto. Olho ao redor. Ninguém ao meu lado, nem na minha frente. O vagão está vazio. São 13h53min, tenho sete minutos para chegar ao trabalho e o trem está andando no sentido contrário. Fico esperando que o piloto fale alguma coisa, que ele me veja ou que me ouça, mas isso era impossível. Eu estava no último vagão.

Como ninguém havia me cutucado na saída da estação terminal? Ou será que alguém me cutucou e eu não senti? Quantos deram risada da moça desmaiada num sono profundo que seguia para o fim da linha num trem vazio? Será que o trem estava sendo recolhido para o estacionamento? Como eu faria para sair do trem quando chegasse lá?

Tantas perguntas passaram pela minha cabeça em tão pouco tempo que eu tinha vontade de abrir a janela e saltar nos trilhos, mas obviamente isso não seria uma boa ideia. Melhor, então, telefonar para a emergência. Cheguei mais perto para ver se conseguia enxergar o número - além de ter recém acordado, eu estava sem óculos de grau - tirei o celular da bolsa, quando levantei a cabeça, vi pessoas esperando o trem na plataforma. Nada disso seria necessário! Bastava desembarcar e seguir meu caminho.

Adormeci e nem me dei conta de quantas estações se passaram. Despertei somente no fim da linha. Tão rápido quanto o trem desliza sobre os trilhos, passam também as horas, os dias, a vida. E a gente nunca sabe qual a estação terminal.

Se dormirmos no ponto, talvez alguém nos cutuque, talvez não. Talvez não nos demos conta do aviso. Talvez riam da nossa cara por desperdiçarmos a viagem. Talvez nosso vagão seja recolhido.

Se estivermos despertos, no entanto, nem será preciso acionar o botão de emergência. Basta desembarcar e seguir nosso caminho.

Obs.: A foto que ilustra este post é de Guilherme Koszeniewski

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Levantando acampamento


“A experiência de presenciar a tragédia in loco vale para pensar em tudo o que não queremos que a correnteza leve embora”

O programa (de índio) já estava combinado desde o ano passado. Há meses vínhamos esquematizando este acampamento. Data, local e cardápio estavam programados para o encontro. Só não havíamos previsto uma coisa: a chuva. Pelo menos não aquela chuva.

Eram 6h30min quando os primeiros levantaram de seu colchão inflável e saíram barraca afora. Observando as nuvens no alto dos morros, avisaram: “Vai chover”. A previsão foi repetida por todos os 14 reunidos no camping. No entanto, cada qual estava mais despreocupado: uns preparavam um sanduíche, outros tocavam violão, outros ainda esquentavam água para o chimarrão. E foi só o tempo de duas cuias para o temporal desabar.

Começamos a empilhar os pertences na “área de convivência” do acampamento, que nada mais era do que uma lona. Só que o granizo seria demais para ela, a ponto de um dos presentes soltar o alerta: “Deixem tudo e se salvem!”. Desespero de uns, tranqüilidade de outros. Nosso cinegrafista amador narrava a fuga dos demais com uma frase repetida cada vez com maior ênfase: “Sente o desespero das pessoas”.

Pudera. O mundo caindo, a água do rio subindo, notícias chegando da cidade, do tipo: “Vamos logo que a água está invadindo a estrada”. Dava para pensar que ficaríamos por ali mesmo, debaixo da lona. Mas os instantes de desespero foram superados logo, afinal, bastava levantar o acampamento e voltar para casa. Diferentemente dos vizinhos do camping que perderam a própria casa.

Tudo o que perdi foi um velho baralho de 66. O suficiente para refletir como é importante “levantar acampamento” da vidinha mais ou menos que nossa rotina lotada nos impõe no dia a dia. A experiência de presenciar a tragédia in loco vale para pensar em tudo o que não queremos que a correnteza leve embora: a companhia dos amigos, as histórias para contar, a solidariedade para ajudar o outro a se proteger da chuva, o bom-humor suficiente para abrir uma cerveja em meio à tormenta.

Antes que sejamos nós as vítimas de algum desastre, convém reservar alguns momentos para programas – nem que sejam de índio! – na companhia de pessoas que valem a pena. Na certeza de termos encontrado pelo menos umas 14 desse tipo, terminamos aquele dia trágico num churrasco um tanto cômico, com direito a paródias e declamações, onde até combinamos a próxima aventura.

Se for preciso, deixo tudo, tudo mesmo, para salvar a presença dessas pessoas na minha vida. Pessoas desse tipo, das que não queremos que a correnteza leve embora, são as que costumamos chamar de AMIGOS.