quinta-feira, 30 de maio de 2013

O jornalismo offline acabou

E ficaram lá, secando térmicas de água quente até lavar o chimarrão, contando causos e pensando: "se o sistema não voltar, como vai ter jornal amanhã?". 

Para repórteres da minha geração, é um exercício constante de imaginação pensar como se fazia jornalismo quando não existia internet nem celular.
Minha agenda de fontes está gravada em um arquivo "na nuvem", assim nutro a ideia de que posso acessá-lo de qualquer lugar e a qualquer tempo. Se precisar de um contato que não esteja ali, encontro com uma pesquisa no Google o telefone de uma assessoria ou coisa que o valha para chegar até quem me interessa. A assessoria, provavelmente, ainda vai me pedir para enviar um e-mail para "formalizar" meu pedido de entrevista. Sem contar as redes sociais, quase sempre um primeiro terreno de busca por "personagens" para matérias sobre determinados temas.

Pois ontem a rede caiu na Redação. E o jornal parou. Por cerca de três horas, dezenas de jornalistas desbaratinados se perguntavam como iriam trabalhar com o sistema fora do ar."Vê se é um problema só nosso ou se está sem internet na cidade inteira", provocou uma editora. "Se eu soubesse para qual número telefonar", refletiu a repórter. Alguém pegou um bloco e saiu para a rua, como que em um gesto de saudosismo - de um tempo bom em que não se fazia jornalismo sentado numa sala climatizada. Mas a maioria se convenceu de que o jeito era esperar a rede voltar. E ficaram lá, secando térmicas de água quente até lavar o chimarrão, contando causos e pensando: "se o sistema não voltar, como vai ter jornal amanhã?".

Sim, porque todo esse drama não é por não poder atualizar o site nem acessar e-mail. Até o jornal impresso do dia seguinte depende da rede. Sem acesso ao computador, não era possível diagramar as páginas, muito menos remeter para o industrial fazer a rodagem. Eu já não estava mais lá para ver, mas consigo imaginar a festa quando a conexão voltou. Sinos tocando e gritos de gol podem ter ecoado pela Redação. Certo é que muitos foram manifestar sua alegria nas redes sociais tão logo conseguiram fazer o login.

Moral da história que, embora o jornal impresso sobreviva, o jornalismo offline acabou. Da matéria-prima ao produto final, todos os processos jornalísticos estão atravessados por tecnologias digitais.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Não é preciso ir à Amazônia

“Num território de 22 hectares, 16 famílias guarani-mbyá pintam o rosto em sinal de proteção, comem o que colhem e pescam na reserva  e conversam em tupi-guarani, a língua mais poética de que tenho notícia.”

Estas são as pequenas guaranis Yvá, Para'reté e Silvia, vestidas para a apresentação do coral. 
Registro feito por Bruno Alencastro. Mais fotos dele aqui: http://grem.io/idW

Em uma conversa de hostel, os viajantes começaram a contar experiências no Exterior. É relato comum que os estrangeiros, principalmente na Europa, olhem com estranhamento para os brasileiros do Sul, loiros e de olhos claros. Como assim, não são todas mulatas? Não sambam? Não conhecem a Amazônia?

Sim, eles acham que a Amazônia é no quintal de casa, logo ali. Pois uma das mochileiras contou que voltou de uma temporada na Espanha determinada a ir para a Amazônia. Ela foi, andou de barco no meio da mata, conheceu reservas indígenas e agora pode dizer que conhece a Amazônia nas próximas viagens. Ouvi tudo com muita curiosidade, já que está nos meus planos ir a Manaus em setembro...

Eis, então, que cai no meu colo uma pauta sobre a inauguração de uma escola indígena em Viamão, Região Metropolitana de Porto Alegre. Coisa de 40 quilômetros de viagem e você desembarca em um universo à parte. Num território de 22 hectares, 16 famílias guarani-mbyá pintam o rosto em sinal de proteção, comem o que colhem e pescam na própria reserva e conversam em tupi-guarani, a língua mais poética de que tive notícia.

Ok, eles vestem calça jeans – e até boné do Bob Marley –, mas ainda mantêm no cotidiano tradições ensinadas pelos antepassados, que já ocupavam aquelas terras por volta de 1750, antes da chegada dos açorianos.

Conhecer esses lugares, poder contar essas histórias é o que me anima do jornalismo. Mais que a repercussão de ser citada por um comentarista de TV. Resolvi ser jornalista não para ficar "conhecida", mas porque achava que poderia dar visibilidade ao que poucos percebem, ou fazem de conta que não veem. Às vezes dá certo.

Algumas horas na aldeia Tekoá Pindó Mirim e a escola Nhamandú Nhemopu’ã me fez “acordar para o divino sol” do conhecimento e perceber que não era preciso ir tão longe, lá na Amazônia. Bastava ir além de onde termina o asfalto para descobrir um outro Brasil, aquele que é estrangeiro para nós, que estamos aqui do lado. Os europeus estão cobertos de razão. Nós ainda não descobrimos o Brasil.