sábado, 24 de maio de 2014

A curiosidade

Foto: Fernando Gomes/ArquivoZH

Eu era folguista do editor de contracapa do jornal quando deparei com uma foto extraordinária de Fernando Gomes, um dos feras da fotografia de Zero Hora. A ponte sobre a BR-287, em Mata, tinha se partido ao meio, o Fusca ficou dependurado a ponto de despencar na água revolta, a família saiu correndo pelo que sobrou de estrada. A cena era espetacular.

A foto faria parte de uma exposição no Uruguai, por isso voltou a pipocar nas páginas do jornal. Para os contemporâneos de Fernando, era uma das fotos jamais esquecidas. Curiosa, fui pesquisar no sistema interno do jornal que foto era aquela. Descobri que ela completaria 30 anos em maio de 2014. Troquei uma ideia com o editor de foto e deicidmos: vamos voltar lá e contar a história desta família.
Fernando se empolgou com a ideia, até ampliou mais fotos do mesmo negativo (sim, usava-se filmes na época, e em preto e branco!) para dar de presente ao seu Lídio e à dona Maria. Deu para ver nos olhos a emoção de cada um. E a de Fernando também, depois registrada em um vídeo feito na Redação para contar a história daquela foto. Ele já tinha me confidenciado na estrada que era a mais importante da brilhante carreira dele. E agora eu estou no time dos que nunca mais vão esquecer aquela imagem.
O mais surpreendente é que a família do Fusca não estava fugindo da enchente: Lídio queria ver de perto o aguaceiro. Era um curioso de marca maior. Por pouco, ele não se tornou prova viva (?!) daquele ditado: “a curiosidade mata”.
Depois de reencontrar a família do Fusca, fomos a Jaguari, vizinha de Mata. Mais histórias. A última parada foi o arquivo histórico municipal. A Ione, que cuida do museu, pediu para assinarmos o livro de presenças. Vacilei antes de preencher o campo “profissão”. Como me deu um branco desses em meio a um trabalho de reportagem? Pois deu. Parecia que designações como “jornalista” ou “repórter” não cabiam ali. Sei lá.
De volta ao hotel, ao fim da jornada, comecei a ler um livro de Eliane Brum. Então, entendi tudo. “Ser jornalista é mais do que uma profissão, é um ser/estar no mundo”, diz Eliane, na apresentação de A menina quebrada. É assim que me sinto. Uma curiosa no mundo.

domingo, 19 de janeiro de 2014

A hora de escrever os agradecimentos


Cada etapa da vida tem suas emoções particulares, mas uma conquista é sempre uma conquista.
Eu andava, nos últimos dias, meio desanimada com esse negócio de ser mestre. Fiquei pensando que, no fim das contas, o mestrado não serve para muita coisa nesta vida.

No mercado de trabalho, um mestrado acadêmico, quando muito, conta pontos para desempatar um processo seletivo, mas não representa aumento de salário nem de prestígio interno. Para ser professora universitária, o mestrado é insuficiente em universidades de maior reputação. Para concurso público em universidade federal, só com doutorado. Aí já começa a bater aquela crise existencial de pensar num novo projeto e ficar mais quatro anos sofrendo em cima de uma tese. Porque por mais que você goste de estudar - e eu gosto muito! - é sofrido esse processo.

Pois acho que foi justamente esse "sofrimento" que fez aflorar a emoção na hora de escrever os agradecimentos na dissertação.

O momento de escrever os agradecimentos é quando você resolve colocar um ponto final em tudo isso e entregar nas mãos da banca o futuro daquilo que você conseguiu escrever. E quando você resolve colocar um ponto final sempre fica aquela sensação de que não ficou tão bom quando poderia, que faltou ler um outro livro daquele autor, pesquisar um pouco mais sobre aquele conceito, e por aí vai.

Ao mesmo tempo, você não tem mais tempo nem energia para correr atrás do que acha que faltou. O que está escrito é o melhor que você tem para apresentar no momento. E é fruto de meses de renúncia, desde não dormir até mais tarde num sábado, derreter na frente do computador num domingo abaixo de 40 graus em Forno Alegre, deixar de passar o fim de semana na Serra com a família ou de fazer festa com os amigos até o dia clarear. Tudo porque você precisa dissertar.

E aí, na hora de agradecer quem te aguentou sofrendo esse tempo todo, essas lembranças vêm à tona. Então você se dá conta de que terminar esta etapa é importante, sim. É uma vitória acabar com tudo isso podendo ser chamada de mestre. Mas vamos esperar a banca dizer se eu posso mesmo. #oremos!