“A dor de quem leu o nome do amigo no jornal não cabe na contabilidade.”
O Grêmio tinha acabado de ceder um empate aos 45 minutos do segundo tempo, enterrando o sonho de título no campeonato Brasileiro, quando publiquei a macabra matéria que se repete a cada fim de feriado contabilizando os mortos do fim de semana e chamei um colega para jantar.
Entre lamentações tricolores e comentários sobre o cardápio, houve tempo para falar da forma sombria como acabamos lidando com a morte numa Redação de jornal.
Falamos em “balanço” de mortes como se não se tratasse de vidas interrompidas. E que palavra difícil de engolir esta: acidente. O nome disso sugere que poderia ter sido evitado. Um acidente é um descuido, um imprevisto, uma estupidez. A morte é uma estupidez. O modo como cobrimos a morte é uma estupidez.
Mas depois do balanço começam a se revelar histórias de personagens por trás daqueles números. Além das vítimas, pais, mães, noivas, maridos, filhos, amigos. Aí deparo com a declaração de uma menina de 17 anos: “Nunca imaginei que iria perder um amigo assim”. Um amigo perdido não é apenas um número na estatística.
A dor de quem leu o nome do amigo no jornal não cabe na contabilidade. Só de pensar, um dia, ouvir o policial do outro lado da linha dizer o nome de algum dos meus, arrepia até meu último fio de cabelo.
Ninguém está livre, disse meu colega na janta. De fato, não estamos. Afinal, somos jornalistas, porém humanos. Sentimos, sofremos, vivemos – e morreremos como todos. É bom que tenhamos isso em mente, para não perdermos a capacidade (humana) de contar histórias (humanas) para além da frieza dos números.
Somos jornalistas para contar histórias, não para fazer contas.