segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Para além da frieza dos números

“A dor de quem leu o nome do amigo no jornal não cabe na contabilidade.” 

O Grêmio tinha acabado de ceder um empate aos 45 minutos do segundo tempo, enterrando o sonho de título no campeonato Brasileiro, quando publiquei a macabra matéria que se repete a cada fim de feriado contabilizando os mortos do fim de semana e chamei um colega para jantar.

Entre lamentações tricolores e comentários sobre o cardápio, houve tempo para falar da forma sombria como acabamos lidando com a morte numa Redação de jornal.

Falamos em “balanço” de mortes como se não se tratasse de vidas interrompidas. E que palavra difícil de engolir esta: acidente. O nome disso sugere que poderia ter sido evitado. Um acidente é um descuido, um imprevisto, uma estupidez. A morte é uma estupidez. O modo como cobrimos a morte é uma estupidez.

Mas depois do balanço começam a se revelar histórias de personagens por trás daqueles números. Além das vítimas, pais, mães, noivas, maridos, filhos, amigos. Aí deparo com a declaração de uma menina de 17 anos: “Nunca imaginei que iria perder um amigo assim”. Um amigo perdido não é apenas um número na estatística.

A dor de quem leu o nome do amigo no jornal não cabe na contabilidade. Só de pensar, um dia, ouvir o policial do outro lado da linha dizer o nome de algum dos meus, arrepia até meu último fio de cabelo. 

Ninguém está livre, disse meu colega na janta. De fato, não estamos. Afinal, somos jornalistas, porém humanos. Sentimos, sofremos, vivemos – e morreremos como todos. É bom que tenhamos isso em mente, para não perdermos a capacidade (humana) de contar histórias (humanas) para além da frieza dos números.

Somos jornalistas para contar histórias, não para fazer contas.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Temo por minhas extensões maquínicas

Se meu apartamento fosse um filme de ficção científica eu temeria que os eletrodomésticos estão armando um ataque contra mim. O micro-ondas se recusa a aquecer meu café. A lavagem rápida da máquina de lavar roupas promete 30 minutos, mas demora duas horas para terminar o serviço. O aquecedor elétrico resfria em vez de aquecer. E a televisão tenta me irritar com cortes sucessivos no som.

Enquanto tento driblar o livre-arbítrio dos aparatos técnicos ao meu redor, o Jornal Nacional transmite uma reportagem justamente sobre uma exposição chamada “Emoções tecnológicas”. Não falta mais nada.

Acho que foi a aula de ontem sobre McLuhan que me trouxe à lembrança os devaneios dos meus primeiros anos na pesquisa em comunicação. Para o pesquisador canadense mais pop da ‘aldeia global’, os meios são extensões do homem: a roda uma extensão do pé, a roupa uma extensão da pele. E os aparatos técnicos não param de evoluir e estender nossas capacidades – ou seriam as capacidades deles mesmos?

O limite potencialmente atenuado entre o humano e o tecnológico acabou gerando um imaginário apocalíptico amplamente representado em narrativas de ficção científica cada vez mais verossímeis. Mutantes, robôs, ciborgues e coisas do gênero já nem parecem tão ficcionais assim.

Falo sério, temo pelos devires da ficção científica. Quem brinca com isso é uma dupla humorística da Austrália, que criou há um tempo um quadro de “pegadinhas” na televisão chamado Almost Tranformers. Qualquer semelhança com minha suspeita de que estou à beira de um ataque dos aparelhos domésticos pode não ser mera coincidência.