“Disse de novo, pausadamente: em-bu-ga-da. Ele perguntou para o irmão, a mãe, a avó. Ninguém sabia do que se tratava.”
Toda tradução é uma interpretação. Dizia um pensador (foge-me agora se era Nietszche) que não existem sinônimos: cada palavra só equivale a ela mesma e qualquer substituição é inadequada, para não dizer inútil. Quem vive num lugar onde cavalo é pingo e cachorro é cusco conhece a potência de uma figura de linguagem.
Imagine explicar para um norte-americano o que significa “vê se pode”. Pior: como encontrar uma sentença que defina tão bem um dia gelado quanto “frio de renguear cusco”? Explique isso a um chileno! Eu tive que explicar a mais de dez. Quer dizer, tentei.
Só que nem é preciso ir tão longe. Gírias, regionalismos, neologismos são expressões idiomáticas que causam estranhamento até mesmo a interlocutores que falam o mesmo idioma. Outro dia, eu disse a meu namorado que estava “embugada”. Tive que repetir a palavra pelo menos mais três vezes até que ele entendesse a fonética da expressão (mas não o significado).
Disse de novo, pausadamente: em-bu-ga-da. Ele perguntou para o irmão, a mãe, a avó. Ninguém sabia do que se tratava. Limitei-me a explicar que, lá de onde eu venho, embugar-se é comer demais. Passaram os dias e eis que uma colega de trabalho dele termina a refeição e diz, adivinhe: “estou embugada!”. Era outra migrante da Serra Gaúcha, que jamais imaginaria que um porto-alegrense não sabia o que era embugar-se.
Até agora, nem eu nem ela encontramos sinônimo com a mesma força de expressão do que o vocábulo original. Estar embugado é o ato de embugar-se, e ponto final.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O que faz uma máquina de café

“Quase ataquei o tio da rapadura para ver se ele trocava uma nota de dois por duas moedas de um, mas resisti.”
Essa semana colocaram uma máquina de café automática no corredor da procuradoria, bem ao lado da minha sala. Quando despencaram lá com a tal da máquina, parecia algo de outro mundo! O frenesi faz lembrar aquele causo narrado por Mário Quintana, sobre a primeira vez que viram um carro: todos queriam saber que “bicho” era.
Foi assim com a máquina de café que colocaram lá no MPF. Incrível como um simples equipamento que faz café sozinho muda o ambiente... foi uma briga para ver quem seria o primeiro a depositar sua moedinha e posar para a foto da intranet com o café na mão.
Logo começaram a bater na porta da Ascom para perguntar se a máquina de café funcionava. O negócio estimula mesmo. Não falo do café em si, que é reconhecidamente estimulante. Falo do ato de ir até a máquina pegar um café. Isso parece estimular a convivência informal entre as pessoas, o que, vamos combinar, é justo e necessário num ambiente onde sobram formalidades.
No dia seguinte à instalação, quase ataquei o “tio da rapadura” para ver se ele trocava uma nota de dois por duas moedas de um, mas resisti. A gentileza de um colega me poupou de tal constrangimento. Mas o próximo é por minha conta. Moedas, portanto, serão bem-vindas.
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