quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Quando a leitura dos outros nos interessa (3)


“Disfarçava esticando o pescoço para fazer de conta que estava vendo se o trem despontava nos trilhos.”

Outro dia cheguei na plataforma 30 segundos depois de o trem arrancar com destino a Porto Alegre. Sem opção melhor, tirei o livro da bolsa e sentei no banco para esperar. Pelo menos nove minutos e meio me separavam do próximo.

Ali, sentada, lendo, vi que o rapaz que chegou logo depois de mim disparava olhares em minha direção. Fiquei com vontade de perguntar se havia algum problema, mas logo percebi que ele estava mirando era o livro mesmo. Disfarçava esticando o pescoço para fazer de conta que estava vendo se o trem despontava nos trilhos. Mas acho que ele percebeu que eu percebi, então ele se entregou:

- Estás lendo Cazuza?

Não por acaso, na página anterior havia uma crônica sobre uma música do Cazuza, mas apenas respondi, simpaticamente:

- Não. É uma coletânea de crônicas da Martha Medeiros mesmo.

Ele devolveu:

- Ah bom. Como eu não tinha o que fazer, li uma página contigo.

Contigo?! Veja só que intimidade se esconde numa página virada! Se meu namorado fica sabendo, pode até interpretar mal! Nisso, para me safar, o trem parou na plataforma. Entrei numa porta, o curioso noutra, e nos despedimos como dois desconhecidos que somos, apesar das páginas lidas a dois.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Até parece que precisa entregar


Por favor, parem com essa palhaçada de “Grêmio entrega”. Como se precisasse! O Grêmio só ganhou uma partida fora de casa o campeonato todo, jura que iria bater o Flamengo no Maracanã lotado!

Eu nunca gostei da disputa do Brasileirão por pontos corridos. Desde que foi implantado esse sistema, o campeonato ficou sem graça, sem aquela emoção de “final de campeonato”. Mata-mata é muito mais interessante. Pois bem, eis que este ano os ânimos estão acalorados na última rodada, mas por um motivo tão inusitado quanto indigesto: o Inter tem a chance de ser campeão – desde que o Grêmio vença.

Ora, agora o meu time tem que perder para não deixar o rival levantar a taça! Palhaçada mesmo essa história de pontos corridos. Mas, no “mundo real”, palhaçada mesmo é essa campanha “Grêmio entrega”! Como se precisasse! O Grêmio só ganhou uma partida fora de casa o campeonato todo, jura que iria bater o Flamengo no Maracanã lotado!

Essa campanha “Grêmio entrega” é muito mais folclore da torcida, uma flauta nos colorados, do que um pedido propriamente dito. O Inter não vai ser campeão brasileiro em 2009, mas não porque o Grêmio vai “entregar”, e sim porque o tricolor não tem a menor chance contra o rubro-negro. Não no Maracanã lotado. Em casa, o Grêmio goleou, mas em casa. Não me pergunte o que há com esse time que não vence fora, mas é fato.

Fato, aliás, que os colorados conhecem bem e que lhes serviu de anedota o campeonato todo: “O Grêmio é o bom marido, só joga em casa”, “O Grêmio é um time ecológico, não joga nada fora” e outras tantas escutei. Para agora ter que ouvir essa palhaçada de que o Grêmio vai entregar, que os dirigentes do Inter vão processar... Ah, francamente!

Acorda, colorado! E chora! Não vai ser dessa vez.